O espaço que envelhece com você: o que a arquitetura tem a ver com os seus próximos 30 anos

Imagem
Imaginemos uma manhã comum em qualquer cidade por aí: alguém acorda, vai ao banheiro no escuro, tropeça no batente que nunca incomodou tanto antes, segura a parede porque não há barra de apoio, e pensa que está ficando velho. Não está. Está vivendo num espaço que nunca foi pensado para o corpo que ele tem hoje. Esse é o ponto que me interessa. Envelhecer todos (os que tiverem sorte) vão. Mas até que ponto a arquitetura ignora estes processos? As projeções nos dizem que o Brasil vai ter 58 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2060. E o que estamos construindo para receber esse contingente? Apartamentos com corredores de 80 centímetros. Banheiros onde dois adultos mal conseguem se virar. Entradas sem rampas. Calçadas que parecem ter sido projetadas para testar equilíbrio. A cidade, como eu costumo repetir por aqui, nunca te viu. E a maioria dos lares também não. "Aging in place" não é um conceito de design escandinavo importado para Instagram. É o direito de permanecer no ...

Ouça sua mãe na hora de projetar

Estava lendo um texto delicioso sobre como a mãe do autor parou de preocupar-se e passou a amar a arquitetura (aqui em inglês). Ele narra as histórias familiares de projetos e construções até a sua própria trajetória quando se deu conta que sua mãe era absolutamente funcionalista e não dava a mínima para estética que ele cultuava. Ou aprendeu a cultuar.

Fonte
Talvez a leveza e o minimalismo não fizessem parte da memória cultural de sua mãe ou ela apenas pensasse que suas crias não iriam ser felizes em um lar tão despido de emoções e apelos espaciais...Vá lá se saber.
Mais tarde eu cheguei à conclusão, que se você quer saber se uma casa é realmente boa, você a mostra para sua mãe. Porque ela vai ver além de seus conceitos fartsy(1), além dos modelos manchados de sangue que você labutou por noites em fim, além do papel cheio de lágrimas.... Ela vai ver como o mundo vê. Ela provavelmente vai se envolver, enquanto você já se mudou para o próximo projeto.....
E eu fiquei meio que rindo sozinha lembrando de opiniões de minha mãe, em geral sarcásticas e cortantes, sobre alguns de meus projetos. Vou chamar um arquiteto era fatal quando eu demorava para dar uma solução satisfatória para ela. Curta e grossa. Me arrasava com seu jeito elegante de me dizer que me esforçasse mais.

Outra que adorava: arquitetos sabem resolver projetos em terrenos estreitos. Aí fazem maravilhas! Mas quando tem espaço de sobre...como se embananam. Talvez nenhum crítico de Arquitetura tenha resumido tão bem alguns mostrengos que saíram de pranchetas bem intencionadas.  


Quando fiz o mestrado, meu orientador costumava dizer que nós devíamos fazer um resumo do assunto da dissertação para nossas mães. Se elas entendessem é porque estava claro para nós. Não com isso que menosprezasse a inteligência materna. Longe disso. Queria nos afastar das mesuras e salamaleques que usamos para tentar parecer inteligentes.

Talvez a lição materna mais importante na hora de projetar seja: Simplifique. Faça que funcione. Não tente reinventar a roda se você não for gênio. Faça bem o que aprendeu e ajude as outras pessoas com bons projetos.



(1)Fartsy: termo usado para descrever uma pessoa que faz algo estranho e difícil de entender, tentando demais que pareça ser arte, mas que no fundo é pura pretensão.

Gostou? Compartilhe e nos siga também nas redes sociais

Twitter Flipboard Facebook Instagram Pinterest
snapchat: arqsteinleitao 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cortina verde na fachada

10 motivos para NÃO fazer arquitetura

Arte com resíduos no canteiro de obras - Mestres da Obra

Calungas, a representação da escala nos desenhos