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Recebo algumas correspondências falando de como os leitores gostaram dessa ou de outra postagem aqui do blog. E sempre fico super feliz! É ...

2014/09/15

Aprendi com minha mãe

Acabei de ler um livro que troquei em um encontro de blogueiros. Foi uma ideia que surgiu em vez dos tradicionais presentes de fim de ano. Cada um leva um livro que já não precisa estar em nossa prateleira e leva outro. Trouxe o Aprendi com minha mãe de Cristina Ramalho. Leitura deliciosa, rápida, me fez refletir o tanto que aprendi com minha mãe e com as mulheres que me arquitetaram. Desde ser moleca (o que nem sempre consigo), a brincar com a vida e a sonhar. A escrever bem e a saber que mãe é tudo de bom. 

Sobre minha mãe posso dizer que tem várias faces, todas belas! Tem um sorriso que encanta, tem um um humor fino e irônico que sempre nos arranca uma risada. Tem um jeito generoso para quem necessita, tem sempre uma palavra gentil para quem trabalha com ela, uma ajuda de coração. Tem um ar desconfiado, jeito de alemão que contabiliza e sente. Tem uma sensibilidade de poeta e uma dificuldade de passar por cima do que lhe dói. Tem uma face brincalhona. E uma face séria. Tem acima de tudo um jeito de amar que encanta e um charme que a tornam muito especial. Tem uma magia que manteve meu pai eternamente apaixonado até o fim de seus dias. 

E mais deixo que ela mesma diga com esse texto em que descreve, de forma precisa e terna, sua infância.

MINHA INFÂNCIA

Meus pais moravam no interior. Capivari, nas “grotas” em bom português. De ano em ano íamos à capital. Eram passeios inesquecíveis. Os preparativos, a longa viagem. Nossa cidade distava uns bons três dias de viagem. Íamos nos mais variados meios, ora de carroça puxada a cavalos, num Ford último tipo ou de navio. Deste último jamais esqueço. Aquele rio enorme que mais parecia um mar. Eu nunca tinha visto o mar, mas imaginava. Era água demais e me amedrontava. Era um meio elegante de viajar e tínhamos que conservar nossa roupa, a única, em ordem até a chegada. Mas valia a pena. Como nos encantava a fileira enorme de carros nos cais. Sempre pensara que o Ford preto era o único... 

A prancha de decida era o maior pavor da gente miúda. A água funda, suja, logo abaixo. Mas era bom. Diferente. Eu gostava.
A família de meus avós Stein, minha mãe é a menina loira a direita
Meu pai adorava viajar. Andar, andar...Demorava pouco nos lugares. Nunca parava. Lembro seu cavalo Estrela, sempre pronto, encilhado com seu melhor arreio. E ele. Botas de cano alto, quilotes e jaqueta, chicote na mão. Parecia um cavaleiro nobre. Mas no fundo não era nada disso. Gostava mesmo de atender seus clientes. Levava remédios e, ás vezes, até operava. Era o Deus do lugarejo. Mas gostava mesmo de mudar, mudar...Com a enorme família procurava alguma coisa pela qual ansiava. Talvez a tenha encontrado em Capivari, pois lá ficou para sempre.
Minha Vó Dora na exposição farroupilha de 1935. Minha mãe é a menina de marinheira na frente da foto. 
Minha mãe acompanhava-o. Não gostava daquela vida de nômade. Sempre com mochila nas costas. Tinha um ar triste e eu nunca a compreendi. Talvez por ser criança demais.
Nossa casa era alegre e cheia de gente. Às vezes meu pai trazia seus pacientes e transformava nossos quartos e salas em um pequeno hospital. Como era cheia de mistérios aquela sala de operações. Quando os pacientes iam embora, vinham outros. E assim decorriam nossas vidas.

A sala de jantar, grande e muito limpa, tinha um aspecto respeitável. Só entravamos lá para fazer as refeições. As mãos bem, lavadas e nada de falar na mesa. Meu pai fazia nossos pratos com carinho. Feijão bem esmagadinho, arroz e verdura. Crianças tinham que comer verdura. Até hoje lembro o espinafre, descendo empurrado goela abaixo. Depois ele sentava. Gostava de um bom vinho e mesa farta. Tinha um ar bonachão. Comentava os assuntos do dia com nossa mãe e os mais velhos.

Melhor, mais acolhedora era nossa cozinha. Pequena quentinha. Nas longas noites de inverno nosso pai lia para nós livros que guardo no fundo do coração. O que mais me emocionou foi um, de aventuras no Amazonas - “Ao longo do Amazonas”. A personagem feminina tinha o meu nome. Cada dia papai lia trechos emocionantes. Eu os vivi, um por um...

Avós Stein
Tinha coisas gostosas para se comer. A gente via sair, quentinhos, aqueles gostosos bolinhos com canela. Outra coisa que me fascinava eram os sacos de açúcar, empilhados na metade do quarto. Não era despensa não. Era quarto mesmo. E laranjas. Tantas que iam até o teto. Papai fazia, em grandes tonéis, um vinho especial de laranjas. Todos os anos enchia aqueles tonéis de vinho. Mamãe fazia tachadas de doces e geleias. O que eu mais gostava, não eram das gostosas geleias, mas do laranjal empilhado no fundo do quarto.

De mulheres era a nossa família. Cinco garotas levadas e saudáveis. Lia, quinze anos, morena, sonhadora, não gostava de Capivari. Vivia dentro de sim mesma, a espera de um príncipe encantado que a levasse dali. Flávia, treze anos, inteligente, também morena, andava a catar livros. Toda a leitura a fazia realizada, mergulhada na sua grande vontade de ser alguém na vida. Uma médica como o pai. Maria Eugênia, onze anos, cabelos castanhos e ar de sabida, gostava de contar tudo para ganhar prestígio junto a papai. Tila, oito anos, brabinha, puxava os cabelos se alguém mexesse com o que era dela. Ótima dona de casa, queria tudo limpo e areado. Apesar de me socar de vez em quando, muito temos em comum. Os cabelos da Tila eram castanhos claros e eram claros os seus olhos. Depois vinha eu. Chamavam-me de Polaca. Era loiríssima e de pele clara. Diziam que era teimosa como uma gata. Era a caçula e mimosa da casa. Até que veio meu irmão. Não tive ciúmes dele. Nunca tive ciúmes de ninguém.

Vó Dora com as filhas. Minha mãe no seu colo
Tinha eu quatro anos e só naquele momento percebi que era gente. E comecei a pensar. E a me dar conta da vida. Foi aí que começou de fato a minha vida. 
Nunca percebi que minha mãe esperava nenê. Não tinha a menor curiosidade de saber de onde eles vinham. Meu pai, habilmente, deu-me a grande nova:

- “Filhinha, a cigana trouxe um irmãozinho para você”.

Eu corri, não para ver a criança, queria ver era a cigana. Devia ser espetacular ver uma cigana em carne e osso. Falar com ela, ver a cesta aonde veio o garoto forte. Imaginava uma fada, como via nos livros de história. Com um vaporoso vestido azul...

Sou grata a meu pai. Foi um momento maravilhoso e marcante na minha vida. Cláudio era um garoto forte e meu pai ficou todo feliz. Todos ficaram felizes. Desde então crescemos juntos, brincamos juntos. Brigávamos também. Ele gostava de me bater. Logo ficou mais forte que eu. As nossas brigas não duravam muito.

Nossa infância foi curta para nossa constante curiosidade. Levantávamos cedinho e corríamos pelos campos a buscar flores, explorar as árvores atrás de ninhos de pássaros, olhar os filhotes ou ainda os ovinhos pequenos e recém postos. Quando chegava o inverno...Era o gelo cobrindo tudo. Como nos encantava. Os campos ficavam branquinhos da geada. E nós, pés descalços, íamos, sem sentir frio. Subir nas árvores e lá fazer a minha casa, bem alto. Ver o mundo de cima é bom. Havia um velho carvalho com frondosos galhos que era a minha árvore predileta. Gosto de altura. Morar alto, mas firme. Sentia-me dona do mundo e de mim mesma lá do alto de meu carvalho.

Não tínhamos medo de nada. Mamãe gostava de caçar. E nós corríamos pelos matos, a descobrir sempre uma novidade que nos encantasse. Papai também nos levava a grandes e distantes lugares. Cada um diferente do outro. Com mata grande e cerrada ou imensas planícies, cobertas de rebanhos. Ia a família toda. Acampávamos por dias seguidos, caçando e explorando as montanhas, vendo o sol nascer e a lua surgir.

Tínhamos um meio irmão, mulato bom, que o nosso pai criou. Francisco. Fazia de tudo. Era padeiro, carpinteiro, barbeiro. O pão do Francisco...Como tinha um gosto diferente. Sabor de coisa feita com carinho. Com o mesmo carinho com que nos tratava e fazia todas as nossas vontades. Francisco era nosso melhor amigo. Como tocava violão. Fazia com a turma longas serestas, com todos cantando a mesma canção.

Nossa infância foi feliz. Francisco fez parte dela.

Nas férias de dezembro a janeiro, fevereiro adentro, nossa casa era um burburinho. Acabava o hospital improvisado e os primos que moravam na capital enchiam a casa de alegria e tudo era motivo para a turma se divertir[1]. Papai gostava de gente. De casa cheia, de cantar, de ver todo mundo alegre, mas era severo na nossa educação. Severo demais. Ficávamos felizes quando, em suas poucas folgas, nos levava pelas matas e nos mostrava tudo. A fonte de água gelada, os guabijus caindo de maduros, os pássaros cantando e o regato com pedrinhas bem úmidas no leito. Era lindo. Outra coisa gostosa era o leite, cedinho, na mangueira. Tomávamos grandes copos espumantes. Para os mais preguiçosos era levado na cama. Depois vinha o café da manhã, naquela mesa grande, cheia de coisas gostosas. Francisco fazia um pão de milho que era uma delicia, num forno grande que, vez por outra, enchia de gostosas queijadinhas.

Primos Carlos, Ruy e Adolpho que iam visitar os Stein nas férias
Os amigos eram tantos. Lembro os mascates, gente simples e alegre. Que eram esperados com ansiedade. Suas malas pareciam mágicas, tanta coisa diferente tinha lá dentro. Nos contavam o que se passava no mundo, tão distante daquele lugar perdido. Tinha um, o Lua-Cheia. Apaixonou-se perdidamente por Flávia, assim que a viu pela primeira vez. A cara era redonda e cheia como uma lua. Boa pessoa, mas ignorante como ele só. As garotas faziam safadezas com o pobre. Escondiam-se embaixo da mesa para melhor rir e ele nem percebia, coitado. Certo dia puseram-lhe uma cadeira de pé quebrado. Foi aquele tombo. Nós gostávamos dele. Nos trazia presentes e acreditava em tudo. E lá se ia com sua mala mágica a vender em outras paragens. Mas sempre voltando e nos divertindo.

Mas amigão mesmo era seu Magnus, mascate como o Lua Cheia, mas inteligente. Meu pai gostava de conversar com ele. Falavam de coisas que nunca entendi. A coisa mais bacana que o seu Magnus trouxe foi um rádio de pilha. Vinha gente de longe para ver a maravilha do século. Mais roncava que falava, mas foi um sucesso.

Foram tantos os amigos. Ozy era ligado lá em casa. O mocinho bacana que as garotas disputavam. Outra grande pessoa em nossas vidas, Padre Thomas. Passava dias conosco, rezava a missa e nos dava a comunhão. Velhos amigos, ele e papai, ficavam horas falando de tudo.

A festa mais comemorada lá era São João. A fogueira, uma semana antes preparada, as sortes, as coisas boas...Ah...E os tiros de pistola. Cada um tinha que dar um, por menor que fosse. Eu tinha um medo danado, mas o jeito era apertar o gatilho. Depois o concurso do melhor atirador que, com certeza, nunca fui eu. Estava sempre de olho fechado na hora da pontaria. Festa de São João como aquelas, nunca mais. A gente cresce e as coisas boas ficam para trás. O mundo é visto com outros olhos quando se é criança. A gente vive. Intensamente. Sem problemas, sem pensar em nada.

Antes de meu pai morrer, pouco antes, Padre Thomas foi vê-lo. Conversaram longamente com a porta fechada. Nosso querido Padre Thomas era amigo da gente pequena e nós o adorávamos como a um Deus. Numa manhã de junho meu pai morreu. Até então eu nunca me havia dado conta da morte. Morte era para mim dia bonito, cheio de gente em casa. Morávamos perto do cemitério. Sempre moro perto de um, é a minha sina até hoje. No dia de Finados, as amigas de mamãe iam de véspera e faziam lindas braçadas de flores. Eram tantas que enchiam nossa área. Todo mundo ia levar uma flor para alguém. Nós, até ali, não tínhamos perdido ninguém. Uma flor para um amigo, nada mais. Eu achava aquilo lindo e ficava triste quando o dia acabava e as pessoas iam embora. Morte era flor, amigos se encontrando e um dia alegre. Mas aí foi diferente. Papai se foi, calmo e tranquilo[2]. Eu vi. Acho que viveu feliz. Nossa casa era alegre. Acabou tudo. Nós ficamos tristes. Nossa mãe ficou mais calada. Tomou conta dos negócios.
Éramos pobres. Papai não cobrava de quem era pobre e como a maioria era, só ficou nossa casa e um campinho, onde plantávamos para viver. Nossas irmãs mais velhas foram morar com as tias na cidade. E ficamos nós, Maria, Tila, Cláudio, nossa mãe e eu. Ficou também o Francisco. Mas o seu pão perdeu o sabor. Suas serestas calaram.
Foto depois da morte do pai - minha mãe à direita
Passaram-se três anos. Estudávamos com nossa irmã que lecionava para os garotos da vizinhança. Nossos passeios se limitaram a colher pitangas, tomar banho no rio e brincar por perto. Não longe, como as acampadas no campo. Até a festa de São João acabou. Se foram os montes de laranja e os sacos enormes de açúcar.

Um dia minha mãe adoeceu. E se foi também[3]. Era primavera. Outubro. Para mim ficou tudo amarelado. Eu via tudo feito outono. Não gosto de amarelo, nem de outono. Aí desmoronou tudo. Cada um foi para um lado. E viveu como pode ou como deu. 

Helena Stein Leitão (Brasília - 12/12/1971)



[1]           Nas visitas dos primos do Colégio Militar não fazíamos feio. Carlos, Adolpho e Ruy, filhos da tia Julieta, irmã da mãe, nos visitavam todos os verões. Era uma festa a chegada dos guris da tia Julieta, recebidos com alegria e muito carinho por todos nós. (notas da Flavia Stein Garcia)
[2]           Papai recebeu os Santos Sacramentos em 26 de maio de 1934, das mãos de seu amigo Padre Carlos Thomás Braggi, Vigário de Rio Pardo e faleceu no dia 15 de junho de 1934 às 11 horas da manhã, em sua residência no Capivari, 5º Distrito de Rio Pardo. Está enterrado no Cemitério dos Francos. Faleceu com 63 anos, 5 meses e 25 dias (notas da Flavia Stein Garcia).
[3]           Nossa querida mãe faleceu dia 13 de outubro de 1937, no Capivari. Tinha 41 anos de idade. Faleceu de septicemia. (notas da Flavia Stein Garcia)

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