O espaço que envelhece com você: o que a arquitetura tem a ver com os seus próximos 30 anos

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Imaginemos uma manhã comum em qualquer cidade por aí: alguém acorda, vai ao banheiro no escuro, tropeça no batente que nunca incomodou tanto antes, segura a parede porque não há barra de apoio, e pensa que está ficando velho. Não está. Está vivendo num espaço que nunca foi pensado para o corpo que ele tem hoje. Esse é o ponto que me interessa. Envelhecer todos (os que tiverem sorte) vão. Mas até que ponto a arquitetura ignora estes processos? As projeções nos dizem que o Brasil vai ter 58 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2060. E o que estamos construindo para receber esse contingente? Apartamentos com corredores de 80 centímetros. Banheiros onde dois adultos mal conseguem se virar. Entradas sem rampas. Calçadas que parecem ter sido projetadas para testar equilíbrio. A cidade, como eu costumo repetir por aqui, nunca te viu. E a maioria dos lares também não. "Aging in place" não é um conceito de design escandinavo importado para Instagram. É o direito de permanecer no ...

Se as paredes falassem......

Paredes falam de histórias nossas. Já entrou em um local e sentiu algo bom, uma energia que dá vontade de ficar e ficar? Ou ao contrário? Já se sentiu afugentado porque o clima é pesado? Energias...

Mesmo que não sejamos místicos ou crédulos em algo diferente do palpável, energia é força física, se explica ao mais reticente dos seres humanos. 

E se essa energia nos falasse? O que diriam de nossos sonhos, de nossas lágrimas, de nossas bravatas? 
Falariam dos livros que lemos, das forças que já não temos, das brincadeiras que fazemos? Falariam dos projetos, da organização, dos amores tantos que fomos amando e amando, e desamando pela vida afora. Nem que dentro da gente apenas.

Páginas e páginas de histórias. Algumas tão bregas, tão risivelmente cafonas, tão folhetim barato. Outras talvez épicas, quase obras primas, momentos sublimes de magia e sucessos.   
Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova…
Em algumas príncipes e princesas. Em outras meros espectadores em um teatro vagabundo que ameaça fechar. 

Mas qual o quê. Somos roteiristas e atores. A nós cabe o enredo, cabe o ensaio. De nós parte a estreia. Se será sucesso retumbante, cabe também aos que dela participam, sejam como atores coadjuvantes, sejam como as pessoas que lerão e nos aplaudirão. Enfim! Reconhecidos como os artistas que a Vida sempre nos disse que seríamos.  
Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,
etc. (essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)
Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdômen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.
Se de poesia, drama ou comédia falam nossas paredes, já não importa. Ao artista pela vida cabe viver o papel do momento. Sabendo que a máscara se usa por momentos e que o roteiro nos pede verdade na atuação. De tal maneira verdadeira que bem sabemos o limite da vida real e da arte.

Palavras são janelas ou são paredes.
Elas nos condenam ou nos libertam

Ruth Bebermeyer

Se as nossas paredes falassem....diriam que somos pássaros que cantam, leões que rugem, atores cansados e brilhantes de uma história que um dia termina. Mas que enquanto em cartaz, cabe a nós levá-la com galhardia e muita picardia. 

E que o espetáculo continue.

Fonte : Pinterest e Google

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