Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?

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Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão.  Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...

Cidade amiga da pessoa idosa

Imagem gerada em IA
Uma cidade amiga da pessoa idosa é aquela que promove o envelhecimento ativo, otimizando oportunidades de saúde, participação e segurança para aumentar a qualidade de vida à medida que as pessoas envelhecem. Em termos práticos, essa cidade adapta suas estruturas e serviços para que sejam inclusivos e acessíveis a pessoas mais velhas com diferentes necessidades e capacidades. A ideia de cidade amiga da pessoa idosa está alinhada com o enquadramento do envelhecimento ativo da OMS.

Os espaços e políticas dessa cidade são pensados para proporcionar bem-estar e autonomia, abrangendo diversas áreas da vida urbana. O Guia da OMS lista oito quesitos que certificam uma cidade como amiga da pessoa idosa:
  • moradia,
  • transporte,
  • espaços abertos e construídos,
  • apoio comunitário e serviços de saúde,
  • comunicação e informação,
  • respeito e inclusão social,
  • participação social,
  • e participação cívica e emprego.
Esses tópicos são fortemente interligados e se reforçam mutuamente. Uma cidade amiga da pessoa idosa só pode ser resultado de uma abordagem integrada.

Espaços exteriores e edifícios:
  • Inclui a adaptação do ambiente residencial e de espaços públicos.
  • Busca diminuir as barreiras arquitetônicas e urbanas na locomoção.
  • A acessibilidade urbana é destacada, sendo fundamental para garantir a circulação segura e o usufruto dos espaços públicos.
  • A sinalização clara e a acessibilidade universal são ferramentas relevantes para a autonomia.
  • Rotas acessíveis, contínuas, desobstruídas e sinalizadas, garantem o direito de acessar, circular, observar e interpretar o espaço.
  • O planejamento urbano focado na caminhabilidade (walkability) melhora atributos do espaço público que incentivam o deslocamento a pé, servindo à autonomia dos idosos e garantindo o direito à cidade.
  • É importante considerar aspectos físicos, informativos e psicossociais para a caminhabilidade.
  • Calçadas e faixas de travessia para pedestres em rotas acessíveis são primordiais para a qualidade da rota e nível de acessibilidade, impactando o cotidiano ao permitir circulação e acesso mais amplos à cidade.
  • Condições dos passeios (livres de obstáculos, superfície lisa, fácil acesso) e a existência de banheiros públicos próximos a eles são relevantes.
  • Áreas ao ar livre onde as pessoas possam sentar são vistas de forma positiva.
  • Ambiências urbanas necessitam ser estimulantes e enriquecidas para vivências produtivas e significativas, oferecendo condição de caminhabilidade, usufruto de equipamentos de lazer e encontros positivos com a vizinhança. Isso pode ser alcançado com vegetação, revestimentos adequados, iluminação pública, mobiliário urbano e sinalização convidativa.
  • A percepção de segurança e liberdade é fundamental para a caminhabilidade. Mais pessoas na rua podem inibir atos criminosos.
  • Os ambientes devem ser preparados para usuários com capacidades distintas.

Transporte:

  • Devem existir programas de adaptação para segurança nos transportes coletivos.
  • É desejável um transporte eficiente (ônibus, metrô, trem).
  • A cidade deve ser servida por diversos pontos de transporte planejados estrategicamente para atender às demandas da pessoa idosa.
  • Informações sobre horários devem ser previamente informadas e a comunicação ampla e cuidadosa.
  • Cuidados com iluminação, sinalização e recursos visuais/sonoros nas paradas de ônibus são importantes.
  • A disponibilidade de transporte adaptado ou vaga de estacionamento prioritário é relevante. Lugares de estacionamento prioritário perto de edifícios são considerados elementos importantes.
  • A oferta de diferentes modalidades de transporte (bicicleta, patins, patinetes, cadeiras de rodas motorizadas) pode estimular o idoso a diversificar seus hábitos.
  • A passagem gratuita para idosos é mencionada como uma característica positiva.

Moradia:

  • A adaptação domiciliar é fundamental.
  • O ambiente de moradia é particularmente importante pela acessibilidade, segurança, e pela segurança emocional e psicológica que oferece. Um ambiente satisfatório traz benefícios para a saúde.
  • É importante que os idosos tenham a possibilidade de escolher o lugar onde queiram viver e envelhecer (aging in place). Envelhecer em casa é considerado uma opção melhor que a institucionalização. A residência pode ser adequada se planejada para as mudanças do corpo ao longo do tempo.
  • As cartilhas públicas para idosos devem abordar mais detalhadamente questões arquitetônicas no ambiente de morar, com orientações de medidas preventivas. O Estatuto da Pessoa Idosa traz a questão da moradia digna, mas o conteúdo não aparece frequentemente ou detalhado nas cartilhas analisadas.
  • Em instituições de acolhimento (casas-lares), a padronização pode ser aplicada se as especificidades dos idosos forem consideradas. Espaços padronizados com apelo hospitalar reforçam uma atmosfera fria e impessoal.
  • A afetividade materializada na atmosfera particular do idoso constitui a base para o bem-estar nesses espaços. Intervenções propostas pelos próprios idosos resgatam suas memórias afetivas. A padronização não deve se sobrepor ao apego e à afetividade; deve permitir que o idoso personalize seu espaço íntimo.
  • Arquitetura e design atuam na expressão dos sentidos e nos atributos objetivos e subjetivos de cada moradia, de acordo com a história de vida e memórias.
  • Programas de adaptação residencial para idosos em situação de vulnerabilidade, oferecendo vistorias e adaptações, são essenciais para promover segurança e autonomia.
  • Devem existir diferentes possibilidades de moradia para a terceira idade, com exemplos como Cidade Madura, Vila dos Idosos, República de Idosos, Cohousing Sênior, entre outros.
Participação social:
  • A cidade deve incentivar o fator social do idoso, como sua participação comunitária, atividades físicas e de lazer.
  • Promover a participação de idosos na comunidade incentiva o ato de caminhar pela vizinhança. A formação de novos laços pode ajudar a retomar uma vida mais ativa.
  • Ser parte da comunidade local contribui para uma cidade amiga.
Respeito e inclusão social:

  • Uma cidade amiga do idoso reconhece o direito à vida, à dignidade e à longevidade.
  • Deve enfrentar o contexto histórico de desigualdade estrutural que marca as cidades brasileiras e que gera condições distintas para envelhecer.
  • As políticas públicas podem ser a principal forma de muitos idosos brasileiros terem acesso à cidade e se "cidadanizarem". O desenho das políticas públicas influencia o uso cotidiano da cidade pelos mais velhos.
  • As mulheres mais velhas devem ser ouvidas diretamente em seus territórios, pois enfrentam condições de vida mais precárias devido a desigualdades estruturais e são gestoras de serviços urbanos e sistemas de apoio familiar/comunitário. Elas devem ser vistas como um grupo cidadão com demandas específicas.
  • O respeito e a consideração pelo indivíduo devem ser valores fundamentais em todos os espaços públicos e privados.
  • Membros da comunidade devem se sentir integrados e em segurança. Contatos personalizados com idosos em risco de isolamento social e a redução de obstáculos econômicos, linguísticos e culturais são importantes.
Participação cívica e emprego:
  • Inclui a possibilidade de emprego remunerado, ocupação ou trabalho voluntário para manutenção de estado ativo e preservação das conexões sociais.
  • A cidade deve incentivar o protagonismo do idoso na formulação das políticas a ele destinadas.
Comunicação e informação:
  • Informações variadas e relevantes devem ser rapidamente acessíveis para pessoas idosas com diversas capacidades.
  • A forma de comunicar que os serviços estão se adaptando às necessidades específicas do idoso garante maior segurança e autonomia.
  • A legibilidade da cidade é crucial para que seja inclusiva.
Apoio comunitário e serviços de saúde:
  • Disponibilidade de serviços de saúde perto do local onde vivem e de fácil acesso é essencial.
  • Inclui serviços de cuidados domiciliares.
  • Apoio voluntário deve ser incentivado. O voluntariado intergeracional é uma ideia que se repete.

O desafio é transformar o conhecimento técnico em melhoria real das condições de vida, especialmente em territórios urbanos resultantes da autoconstrução e em um contexto de desigualdade estrutural. É urgente e estratégico que as cidades busquem ações efetivas para ampliar o assessoramento técnico às populações mais empobrecidas, criando canais de financiamento alternativos e assegurando a qualidade do espaço construído como prevenção e garantia de autonomia e independência. É preciso desenvolver critérios mais cuidadosos no tratamento de instrumentos públicos de qualidade e que as ações de governança sejam amparadas por orientações de especialistas.

Em suma, uma cidade amiga do idoso, com espaços que proporcionam bem-estar e autonomia, é aquela que, além de adaptar seu ambiente físico para garantir acessibilidade e segurança, integra políticas de transporte, habitação, saúde e assistência social, promovendo a participação social e cívica, valorizando o respeito e a inclusão de todas as pessoas idosas em sua diversidade e complexidade, e ouvindo ativamente suas demandas.

Leia também: Metamorfose da Vida - cidades inclusivas, moradias compartilhadas e as emoções na maturidadeComo Agilizar Cidades Inclusivas: Um Olhar pelos 6 Chapéus do Pensamento

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