A cidade também envelhece. E a casa, às vezes, envelhece antes de nós

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Como arquiteta, tenho uma certa implicância com a ideia de que minha profissão seja apontada como algo que começa, e as vezes termina, essencialmente na estética. Talvez porque, depois de tantos anos de prática, trabalhando com espaços internos e externos, e as pessoas que ali vivem e circulam, tenha ficado cada vez mais evidente para mim que uma porta, uma escada, uma calçada ou uma janela podem interferir muito mais na vida de alguém do que aquilo que aparece nas fotografias dos projetos. Quando falamos de envelhecimento, isso fica ainda mais evidente. A realidade nos mostra que o Brasil está envelhecendo rapidamente. Aquela pirâmide etária que aprendemos a desenhar nos livros de geografia já não representa o país que temos. E ainda estamos tentando entender o que isso significa para as nossas casas, para as nossas cidades e para o sistema de saúde. Eu costumo pensar que há uma pergunta simples por trás de tudo isso: onde queremos envelhecer? A resposta da maioria das p...

Metamorfose da Vida - cidades inclusivas, moradias compartilhadas e as emoções na maturidade

Coletânea livro

Tenho a alegria de anunciar o lançamento do livro "Metamorfose da Vida - A Arte de Envelhecer - Volume 2", organizado por Adeli Sell e Claire Abreu, uma coletânea onde escrevo três artigos. É uma obra abrangente e transgressiva que aborda o tema do envelhecimento de forma multidimensional. 

Uma das inspirações do livro foi a necessidade de dar maior atenção à velhice em uma sociedade que prioriza a juventude e o consumo. Ele surge como uma continuação do Volume 1, agregando novos autores e conhecimentos sobre o envelhecimento.

O livro se divide em quatro partes principais:

1. Promoção da Saúde: Aborda temas como sexualidade na terceira idade, Alzheimer, atividade física, cuidados paliativos, massagem geriátrica, nutrição e saúde bucal.

2.Direitos e Qualidade de Vida: Discute questões financeiras, direitos do consumidor idoso, cidades resilientes, moradias compartilhadas e direito à saúde.

3. Compreensão das Emoções: Explora temas como vazio existencial, solidão, síndrome do ninho vazio e dinâmicas familiares.

4.Relatos: Apresenta diálogos intergeracionais e histórias pessoais.

E uma parte especial sobre o Movimento Sociedade sem Idadismo

O envelhecimento é um processo inevitável, mas sua vivência pode ser profundamente transformada por meio de escolhas conscientes e de políticas públicas e urbanísticas que priorizem o bem-estar e a inclusão. Na coletânea Metamorfose da Vida – a arte de envelhecer, exploramos aspectos que permeiam a relação entre a terceira idade, a moradia e o espaço urbano, a partir de três olhares complementares. Os meus capítulos tratam dos seguintes assuntos:

Cidades Resilientes e Seguras para Idosos no Brasil

O ambiente urbano desempenha um papel crucial na qualidade de vida dos idosos. Com o envelhecimento acelerado da população brasileira, adaptar nossas cidades para torná-las resilientes e inclusivas é uma prioridade inadiável.

Medidas como a criação de espaços verdes acessíveis, a adaptação de calçadas e mobiliário urbano e a implementação de tecnologias assistivas são fundamentais. Além disso, redes de apoio social, como centros de dia e creches para idosos, oferecem suporte prático e emocional para quem enfrenta as vulnerabilidades da idade.

Planejar cidades para idosos vai além da arquitetura: envolve compromisso com a sustentabilidade, a inclusão social e a inovação tecnológica. Desde telemedicina até sistemas de alerta, a tecnologia pode ser um grande aliado para integrar os idosos à vida comunitária e garantir sua segurança.


Moradias Compartilhadas para Pessoas Idosas

A busca por soluções habitacionais que promovam tanto autonomia quanto segurança é um desafio crescente em uma sociedade que envelhece rapidamente. O conceito de cohousing sênior aparece como uma resposta inovadora, combinando a privacidade das unidades individuais com a convivência e o suporte social dos espaços compartilhados.

Os benefícios são notáveis:
  • Convivência social que combate o isolamento.
  • Divisão de custos, tornando a moradia mais acessível.
  • Segurança reforçada, essencial em faixas etárias mais vulneráveis.
No entanto, sua implementação requer um planejamento arquitetônico e urbano inclusivo, com atenção à ergonomia, acessibilidade e sustentabilidade. Exemplos bem-sucedidos, como os projetos na Dinamarca e no Japão, mostram que a adaptação dos espaços físicos e o uso de tecnologias, como sistemas domóticos, podem prolongar a autonomia dos moradores. No Brasil, iniciativas emergentes já começam a trilhar este caminho, mas o modelo ainda carece de políticas públicas e subsídios financeiros que o tornem viável, inclusive para populações de baixa renda.

Navegando nas Águas da Maturidade 

Se a moradia é o palco, a jornada da vida é o enredo que dá sentido à experiência da maturidade. Neste texto mergulhamos nas angústias e aspirações que emergem na transição para a terceira idade. As respostas de questionários e entrevistas com pessoas acima de 60 anos trazem um retrato multifacetado dessa etapa, revelando:

  • O desejo por leveza e autenticidade, muitas vezes negligenciados em períodos anteriores da vida.
  • A importância das viagens e da saúde como caminhos para alegria e bem-estar.
  • A busca por aprendizado contínuo e o fortalecimento de laços afetivos.
Enfrentar a sensação de vazio pós-aposentadoria é um desafio particular, mas as soluções apontam para a criação de uma rotina com atividades que tragam propósito, sejam hobbies, voluntariado ou novos projetos. Celebrar a maturidade com autenticidade transforma a terceira idade em uma fase rica em sabedoria e significado.

Destaca-se uma visão integrada do envelhecimento, que não se limita às questões da saúde, mas abrange moradia, relações interpessoais e os desafios do espaço urbano.

Na arte de envelhecer, há uma mensagem essencial: planejar, adaptar e incluir são verbos que moldam não apenas as cidades e moradias, mas também a maneira como encaramos essa etapa da vida. A maturidade pode, e deve, ser vivida com dignidade, segurança e alegria. A transformação que propomos está em criar condições para que todos os idosos possam continuar a contribuir e a participar ativamente de suas comunidades, vivendo plenamente a metamorfose da vida.

"Metamorfose da Vida - A Arte de Envelhecer - Volume 2" é, pois, uma obra rica e multifacetada que oferece uma visão abrangente sobre o envelhecimento, e se destaca como uma contribuição valiosa para a compreensão e valorização da velhice na sociedade contemporânea, explorando de forma multifacetada e abrangente as múltiplas dimensões do envelhecimento hoje. Ao considerar aspectos biológicos, psicológicos, sociais, econômicos e culturais, o livro busca desconstruir a visão negativa e estereotipada frequentemente associada à fragilidade, dependência e inutilidade no envelhecer.

Em contrapartida, apresenta a velhice como um período de crescimento pessoal, liberdade, novas descobertas e prazer na vida, desafiando a ideia de que envelhecer é sinônimo de declínio. Os autores destacam que a sociedade atual, movida pelo consumismo, negligencia a importância dos idosos, favorecendo a juventude e a produtividade. Assim, o livro se posiciona como um ato de resistência, resgatando a dignidade e o valor das pessoas acima de 60 anos, mostrando que essa etapa pode ser rica e plena.

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