O espaço que envelhece com você: o que a arquitetura tem a ver com os seus próximos 30 anos
As projeções nos dizem que o Brasil vai ter 58 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2060. E o que estamos construindo para receber esse contingente? Apartamentos com corredores de 80 centímetros. Banheiros onde dois adultos mal conseguem se virar. Entradas sem rampas. Calçadas que parecem ter sido projetadas para testar equilíbrio. A cidade, como eu costumo repetir por aqui, nunca te viu. E a maioria dos lares também não.
O lar como campo de minas (e como mudar isso)
As quedas são a terceira causa de morte de pessoas acima de 65 anos no Brasil. Setenta por cento delas acontecem dentro de casa. No trajeto entre o quarto e o banheiro. Na cozinha. Na varanda.
Isso deveria ser pauta de projeto desde o rascunho inicial. Mas não é. Vira, quando muito, uma adaptação tardia, cara, mal-executada, com aquela barra de apoio cromada que foi parafusada no azulejo sem chumbador e que vai ceder exatamente quando mais precisar não ceder.
A NBR 9050 existe. Tem especificações. A questão não é a norma, não são as leis, mas é a cultura de quem projeta, aprova e vende o espaço construído sem perguntar para quem ele funciona depois dos 70 anos. O que a técnica pede é apenas coerência:
- IluminaçãoSensores de presença no trajeto quarto-banheiro. É prevenção.
- PisosMateriais antiderrapantes. Tapetes soltos: fora. Transições de nível: fora (ou que sejam muito bem sinalizados).
- Barras de apoioInstalação a 92 cm do piso, com ancoragem para 150 kg. Não decorativas.
- MobiliárioAssentos entre 45 e 50 cm de altura, com braços. Bacia sanitária elevada para 46 cm.
- CirculaçãoVão livre de porta mínimo de 80 cm. Rampas com largura mínima de 1,20 m.
- BanheiroÁrea de transferência lateral ao chuveiro. Banco removível. Barras horizontais e verticais.
Há uma diferença enorme entre uma barra de aço hospitalar colada na parede de qualquer jeito e uma barra integrada ao projeto desde o início, que faz sentido compositivo, que não parece concessão. O desafio do arquiteto é esse: incorporar a funcionalidade antes que ela precise ser remendada.
A envelhecência começa antes do que você imagina
Existe um termo que estamos usando bastante: envelhecência. A transição que começa por volta dos 40 anos e dura, em média, 25 anos antes de chegarmos ao que chamamos convencionalmente de velhice. É um período longo, ativo, produtivo, que a maioria das pessoas ignora para fins de planejamento espacial.
Ninguém adapta a casa aos 42. Ninguém pensa em acessibilidade ao reformar o banheiro dos 50. E aí, quando o corpo pede, o espaço não tem resposta. Ou tem uma resposta cara, invasiva, que exige obras num apartamento que você ocupa há 30 anos e que, se tivesse sido pensado desde o início com os parâmetros de Desenho Universal, não precisaria de intervenção nenhuma.
A maioria dos projetos residenciais brasileiros ainda não incorpora o Desenho Universal como padrão, mas como exceção especial, como se a casa funcional para um corpo de 70 anos fosse uma versão diminuída da casa real. Essa lógica precisa ser revertida. O corpo que envelhece não é uma variante do corpo padrão. Ele é o destino de todos os corpos padrão.
Além do domicílio: a cidade que não ajuda
O aging in place depende também do que existe fora da porta. De nada adianta um apartamento adaptado se a calçada na frente do prédio tem 40 centímetros de largura e uma raiz de árvore no meio. Se o ônibus tem degraus que exigem salto. Se a farmácia mais próxima fica a seis quadras sem banco para descanso no trajeto.
Há alternativas que começam a surgir fora do modelo tradicional de moradia: as ecovilas voltadas para a maturidade, os condomínios intergeracionais, as moradias compartilhadas que combatem o isolamento sem a institucionalização das ILPIs. Não são soluções perfeitas e não são acessíveis para a maioria. Mas são sinais de que o mercado imobiliário, mesmo que por interesse comercial, está percebendo que esse público existe, tem poder de decisão e demandas específicas que a planta padrão não resolve.
O idadismo que mora no projeto
Há uma dimensão do preconceito que raramente aparece nas discussões sobre idadismo: o preconceito contra pessoas idosas que mora no projeto arquitetônico. Na decisão silenciosa de que o usuário padrão tem 35 anos, visão perfeita, força de preensão adequada para manetes de torneira e mobilidade suficiente para se abaixar até o armário mais baixo da cozinha.
Esse usuário imaginário não envelhece. Ele é eternamente funcional. E quando o corpo real, de carne e osso e anos vividos, entra nesse espaço, é tratado como desvio.
Romper com isso exige mais do que norma técnica. Exige que o arquiteto se pergunte, na fase de projeto, quem vai habitar esse espaço daqui a 20 anos. E que a resposta a essa pergunta mude alguma coisa no partido arquitetônico, não só na lista de requisitos legais.
O que fica
Não estou falando de conforto como luxo. Estou falando de continuidade. Da possibilidade de uma pessoa de 80 anos acordar, fazer café, receber um neto, sair para a rua, voltar, dormir, e ter feito isso tudo sem que o espaço fosse um adversário.
Esse é o projeto que me interessa. Não o apartamento fotografável, não o conceito premiável, não a fachada que aparece em revista. O espaço que funciona para o corpo que você terá, não apenas para o corpo que você tem hoje.
A questão não é se você vai envelhecer. É se o lugar onde você vive foi pensado para isso. E a resposta, na maioria dos casos, é não.
Isso é problema de quem? De quem projeta. De quem aprova. De quem compra sem perguntar. De quem lê este texto e ainda vai reformar a casa sem pensar nessa pergunta.

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