Moradias que Acolhem sem Isolar
Introdução
A longevidade humana é uma das conquistas mais expressivas das sociedades modernas. No entanto, ela impõe desafios urgentes: como garantir qualidade de vida, autonomia e pertencimento a uma população que envelhece em ritmo acelerado, especialmente em países marcados por desigualdades estruturais como o Brasil?Mais do que uma etapa final da vida, o envelhecimento é uma travessia que exige preparação, suporte coletivo e espaços que abracem as complexidades dessa jornada. Neste cenário, moradia é um tema central. Onde e como vivem as pessoas que envelhecem revela não só as escolhas urbanas e arquitetônicas de um país, mas o grau de compromisso social com a dignidade humana.
Moradia e Envelhecimento: O Paradigma do Isolamento
A institucionalização da velhice como resposta hegemônica às demandas do cuidado teve seu auge ao longo do século XX. O modelo das ILPIs (Instituições de Longa Permanência para Idosos) foi estruturado a partir de uma lógica biomédica e assistencialista, muitas vezes marcada pela segregação e pela homogeneização da velhice.Com frequência, essas instituições não respeitam os desejos, ritmos e subjetividades dos indivíduos. Regras rígidas, espaços genéricos e falta de personalização contribuem para o apagamento da identidade dos moradores. O que se pretendia ser cuidado, muitas vezes se torna contenção.
Esse modelo também reflete a lógica produtivista e capacitista da sociedade contemporânea: quem não produz, não participa. E quem demanda cuidados, é visto como peso. Simone de Beauvoir já denunciava, em A Velhice (1970), o abandono social dos idosos e a construção da velhice como “estrangeira” dentro da própria cultura.
A Realidade Brasileira: Desigualdades, Ausência de Política Habitacional e Invisibilidade
No Brasil, o cenário é ainda mais complexo. A maioria das pessoas idosas vive em moradias construídas décadas atrás, sem planejamento para as novas necessidades físicas ou sociais do envelhecimento. Além disso, há um vazio de políticas públicas habitacionais específicas para a velhice. O Estatuto da Pessoa Idosa (2003) reconhece o direito à moradia, mas pouco se avançou em sua implementação prática. Os programas de habitação social raramente incluem critérios de acessibilidade universal, adaptação progressiva e convivência comunitária. E quando incluem, restringem-se a protótipos isolados ou projetos-piloto.Faltam incentivos à adaptação de moradias já existentes, linhas de crédito acessíveis, assistência técnica pública para reformas e regulamentação efetiva de novas tipologias habitacionais inclusivas.
Caminhos Possíveis: Propostas Arquitetônicas e Urbanísticas Viáveis
Há caminhos viáveis e inspiradores, muitos já testados com sucesso em diversos contextos e plenamente adaptáveis à realidade brasileira. Entre eles, destacam-se:- Cohousing para a Longevidade: Moradias colaborativas planejadas para pessoas idosas, em que se combina autonomia (unidades privativas) com convivência e apoio mútuo (espaços compartilhados). O modelo pode ser adaptado para faixas de renda distintas, com financiamento público, cooperativas habitacionais ou parcerias público-comunitárias.
- Habitação Intergeracional: Modelos de convivência que reúnem diferentes gerações: idosos, adultos jovens, estudantes, mães solo, famílias, criando redes de apoio espontâneo e trocas simbólicas. Estes projetos rompem o ciclo do isolamento e contribuem para o combate ao idadismo.
- Adaptação de Moradias Existentes com Apoio Técnico Público: Implementação de programas municipais de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS), conforme previsto na Lei 11.888/2008, voltados à adaptação de moradias de idosos com foco em acessibilidade, iluminação, conforto térmico, segurança e usabilidade.
- Condomínios de Inclusão e Vida Ativa: Condomínios mistos, com unidades adaptadas e áreas comuns planejadas para encontros, oficinas, hortas, espaços de lazer e saúde preventiva, coordenados por gestão participativa. A prefeitura pode ceder terrenos e as unidades serem financiadas por faixas de renda.
- Parques e Centros de Convivência de Uso Múltiplo: Equipamentos públicos de uso livre que incentivem a permanência de idosos no espaço urbano: praças com bancos confortáveis, pistas planas de caminhada, banheiros acessíveis, locais de descanso, wifi público, bibliotecas, atividades culturais e oficinas intergeracionais.
Diretrizes para Políticas Públicas Intersetoriais
Para que essas propostas saiam do campo do ideal, é preciso articular ações com base nos seguintes princípios:- Envelhecimento como direito e não como problema: revisar as políticas públicas com o olhar da longevidade como etapa de potência e não de decadência.
- Universalização da acessibilidade: aplicar o conceito de desenho universal em todos os programas habitacionais, públicos e privados.
- Descentralização do cuidado: investir em redes de apoio comunitário, centros-dia, cuidadores domiciliares e capacitação da rede básica de saúde e assistência.
- Fomento à inovação social: estimular parcerias com universidades, movimentos sociais e startups para desenvolver soluções habitacionais criativas.
- Participação das pessoas idosas nas decisões: incluir os próprios idosos na formulação, monitoramento e avaliação de políticas e projetos que os envolvam.
Conclusão
A arte de envelhecer com propósito exige mais do que uma disposição pessoal: ela precisa de condições materiais, simbólicas e coletivas para florescer. E entre todas elas, a moradia é talvez a mais estruturante.Precisamos romper com o paradigma da institucionalização isoladora e construir alternativas plurais, inclusivas e acessíveis, que reconheçam a diversidade das velhices e celebrem o envelhecer como parte orgânica da vida em sociedade.
A arquitetura, aliada às políticas públicas e à escuta ativa dos sujeitos que envelhecem, pode ser instrumento de transformação radical. Que ela não se limite a construir abrigos, mas crie territórios de autonomia, cuidado e dignidade.
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