Como arquiteta, tenho uma certa implicância com a ideia de que minha profissão seja apontada como algo que começa, e as vezes termina, essencialmente na estética. Talvez porque, depois de tantos anos de prática, trabalhando com espaços internos e externos, e as pessoas que ali vivem e circulam, tenha ficado cada vez mais evidente para mim que uma porta, uma escada, uma calçada ou uma janela podem interferir muito mais na vida de alguém do que aquilo que aparece nas fotografias dos projetos. Quando falamos de envelhecimento, isso fica ainda mais evidente.
A realidade nos mostra que o Brasil está envelhecendo rapidamente. Aquela pirâmide etária que aprendemos a desenhar nos livros de geografia já não representa o país que temos. E ainda estamos tentando entender o que isso significa para as nossas casas, para as nossas cidades e para o sistema de saúde. Eu costumo pensar que há uma pergunta simples por trás de tudo isso: onde queremos envelhecer? A resposta da maioria das pessoas provavelmente será: na minha casa, no meu bairro, perto das minhas coisas, dos meus amigos, dos lugares que conheço. Envelhecer no próprio espaço, um conceito conhecido como aging in place ou envelhecer no lugar, depende de uma combinação de condições, nem sempre presentes. A pessoa precisa conseguir circular dentro de casa, sair dela, caminhar pela rua, pegar um ônibus, chegar a uma praça, consultar um médico, comprar pão. Precisa continuar fazendo escolhas e mantendo relações. Parece simples mas não é.
A casa onde moramos pode ajudar ou atrapalhar. Ela provavelmente foi pensada para a pessoa que éramos quando nos mudamos para ela. Poucas casas são projetadas pensando na passagem do tempo. As necessidades mudam. A força diminui. A visão pode ficar menos precisa. O equilíbrio já não é o mesmo. Uma banheira que parecia ótima aos 40 pode se tornar uma armadilha aos 75. Um tapete decorativo pode virar um obstáculo. Uma maçaneta difícil de girar pode transformar uma tarefa banal em uma pequena batalha diária. Vivenciei isso na casa de meus pais. A decisão de minha mãe de ter um degrau na sala porque podia ver a rua sentada, foi lindo quando ela tinha 50 anos. Se tornou uma armadilha aos 80. E aí entra uma questão que me interessa especialmente: autonomia. Poder abrir uma janela, preparar um café, tomar banho, levantar da cama, ir até a cozinha. São ações tão corriqueiras que raramente pensamos nelas como indicadores de independência. Até que deixam de ser possíveis.
A gerontoarquitetura trabalha justamente nesse espaço entre a capacidade da pessoa e as exigências do ambiente. O objetivo é fazer com que a casa acompanhe as mudanças do corpo, em vez de obrigar o corpo a lutar contra a casa. Uma maçaneta de alavanca, por exemplo, pode parecer apenas uma escolha de ferragem. Para alguém com pouca força nas mãos ou dificuldade de movimentação dos dedos, pode representar a diferença entre abrir uma porta sozinho ou precisar chamar alguém.
Isso é arquitetura. É cuidado. E pode ser prevenção. Quando se fala em quedas de pessoas idosas, geralmente pensamos apenas no momento do acidente. A pessoa tropeçou. Caiu. Fraturou. Mas eu prefiro olhar alguns minutos antes. O piso estava adequado? Havia iluminação suficiente? O caminho estava livre? Existia contraste entre os elementos? O banheiro oferecia apoio? A escada tinha corrimão? O tapete precisava estar ali? A queda pode acontecer em segundos, mas muitas vezes começa muito antes, em uma sequência de pequenas escolhas feitas no ambiente. Por isso a acessibilidade não deveria aparecer apenas quando alguém já apresenta uma deficiência ou uma limitação. Ela precisa fazer parte da maneira como pensamos os espaços desde o início.
A NBR 9050 estabelece parâmetros técnicos importantes para acessibilidade. Pisos, circulação, corrimãos, sinalização, contrastes e diversos outros elementos têm critérios definidos. Mas há uma diferença entre cumprir uma norma e compreender para que ela existe. Uma norma pode determinar uma medida. Pensar arquitetura significa entender o que aquela medida significa na vida de uma pessoa. Por isso a importância de olhar para o corpo que envelhece. E lembrar que não é um corpo alheio. E esse corpo é o nosso. Todos os que tiverem a sorte e o privilégio de envelhecer.
Mas também é preciso lembrar que existe uma contradição interessante quando falamos em envelhecer em casa. Arrumamos o banheiro. Retiramos os tapetes. Instalamos barras de apoio. Melhoramos a iluminação. Perfeito. Até abrir a porta e encontrar uma calçada impossível de andar tranquilo. Um meio-fio alto que pode causar uma queda na rua. Um buraco. Esquinas que alagam em dias de chuva justamente nas rampas de acessibilidade. Um sinal de trânsito que fecha rápido demais. Um ônibus difícil de acessar. Uma praça sem banco. Uma rua sem sombra. E a gente se pergunta, de que adianta uma casa segura se a pessoa não consegue chegar até a padaria?
Envelhecimento não é uma questão exclusivamente doméstica. É também urbanismo, transporte, saúde, segurança, habitação e convivência. É por isso que o conceito de Cidade Amiga do Idoso, desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde, é tão importante. Exatamento porque amplia o olhar para além do prédio e considera o conjunto de condições que permite às pessoas continuarem participando da vida da cidade. Afinal, uma cidade boa para quem envelhece tende a ser melhor para muita gente. Para quem usa cadeira de rodas. Para quem empurra um carrinho de bebê. Para quem está temporariamente com uma perna imobilizada. Para quem carrega compras. Para quem simplesmente não quer enfrentar uma calçada que parece ter sido desenhada para testar a resistência humana. Talvez essa seja uma das melhores formas de pensar acessibilidade: observar quem encontra mais dificuldade para circular e perguntar o que a cidade poderia fazer para diminuir essa dificuldade.
Tecnologia ajuda. Mas não caminha por nós. Falamos cada vez mais em cidades inteligentes, sensores, automação, inteligência artificial e Sociedade 5.0. Tudo isso pode ser muito útil. Uma iluminação que se adapta à presença da pessoa. Sistemas que ajudam a controlar temperatura e luz. Recursos de segurança que alertam sobre situações de risco. Tecnologias que permitem maior autonomia dentro de casa. Mas há uma pergunta que precisamos fazer antes de instalar qualquer tecnologia: isso torna a vida da pessoa mais simples ou apenas acrescenta mais uma coisa para ela aprender? Tecnologia boa é aquela que desaparece no cotidiano. Uma em que a pessoa não precisa quebrar a cabeça para usar. E isso vale também para a cidade. Um aplicativo não resolve uma calçada quebrada. Um sensor não substitui uma praça bem projetada. Uma cidade inteligente que exige que o cidadão tenha cinco aplicativos para atravessar a rua talvez esteja apenas transferindo para o usuário um problema que deveria ter sido resolvido pelo planejamento urbano.
Existe ainda uma parte dessa conversa que costuma ficar escondida atrás das palavras autonomia e envelhecimento ativo: dinheiro. Não basta dizer que todas as pessoas deveriam adaptar suas casas se uma parcela significativa da população não tem recursos para fazer isso. A habitação para pessoas idosas precisa considerar renda, localização, transporte e acesso aos serviços. Uma moradia adequada localizada perto de serviços pode fazer mais pela autonomia de uma pessoa do que uma residência perfeitamente adaptada, mas isolada em uma região sem transporte, comércio ou equipamentos públicos. É preciso lutar por políticas públicas de habitação e melhorias nas cidades, especialmente em bairro mais carentes.
E todas essas reflexões mudam bastante a conversa sobre envelhecimento. Talvez a pergunta que se deva fazer a todo arquiteto, urbanista ou gestor público, seja: Para quem estamos projetando? Para o corpo jovem, ágil e sem limitações que aparece nos desenhos? Para a fotografia da entrega da obra? Ou para as pessoas que vão usar aquele espaço durante décadas, inclusive quando o corpo mudar?
Projetar pensando no envelhecimento não significa construir cidades exclusivamente para pessoas idosas. Significa reconhecer que todos nós estamos envelhecendo enquanto fazemos outras coisas da vida. Essa é a parte que às vezes esquecemos. A pessoa idosa não apareceu de repente aos 70 anos. Ela foi a criança que correu naquela rua, a jovem que pegou aquele ônibus, a mulher ou o homem que trabalhou, criou filhos, mudou de casa, perdeu pessoas, construiu memórias e continuou vivendo. O corpo muda. As necessidades mudam. A cidade também deveria saber mudar. É por isso que gosto de pensar uma arquitetura que conversa com o tempo. Que olha para o presente, mas deixa espaço para o futuro. Porque talvez essa seja uma das formas mais concretas de falar em envelhecimento com autonomia: construir casas e cidades nas quais a idade não obrigue ninguém a abandonar a própria vida. Porque envelhecer no lugar que reconhecemos como nosso é também uma forma de continuar pertencendo. E pertencimento, como a memória, precisa de endereço.
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Grande Elenara! Falou tudo. É um tremendo desafio que arquitetos e urbanistas terão que encarar.
ResponderExcluirE enfrentar com urgência!
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