Quedas: O problema pode não ser só o ambiente.
Durante muito tempo, nos acostumamos a ouvir que cair faz parte da idade. Mas pesquisas mais recentes nos mostram outra realidade. A maioria das quedas pode ser evitada quando entendemos que elas são resultado da combinação entre as condições de saúde da pessoa e o ambiente onde ela vive.
Nos primeiros quatro meses de 2025, cerca de 62 mil brasileiros com 60 anos ou mais foram internados em decorrência de quedas. Em 2024, o país registrou mais de 344 mil atendimentos e hospitalizações relacionados a esse problema e mais de 13 mil mortes. Os números impressionam, o medo de cair (ptofobia) é, de fato, uma das variáveis psicológicas mais estudadas e preocupantes na gerontologia. Grandes estudos populacionais e epidemiológicos realizados no Brasil — como os derivados do ELSI-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros) — apontam que o medo de cair na comunidade ou no espaço urbano circundante afeta cerca de 40% dos idosos em geral, podendo ultrapassar os 50% a 60% especificamente na população feminina ou em indivíduos que já sofreram uma queda prévia.
Esse medo merece atenção já que muitas pessoas passam a caminhar menos, deixam de frequentar praças, evitam visitar amigos e reduzem suas atividades físicas. Com menos movimento, perdem força muscular, equilíbrio e confiança. Aos poucos, o risco de uma nova queda aumenta.
Mas o que devemos atentar que este é um ciclo que pode ser interrompido.
Na arquitetura existe um conceito chamado docilidade ambiental. Em termos simples, significa criar ambientes que trabalhem a favor das pessoas. Quanto maiores são as limitações físicas, sensoriais ou cognitivas, mais importante se torna um espaço que facilite a orientação, reduza obstáculos e transmita segurança. Ou seja, à medida que envelhecemos, o ambiente precisa exigir menos esforço e oferecer mais apoio. Quando isso acontece, diminuem as quedas, aumenta a autonomia e a cidade volta a ser um espaço de convivência, e não de medo.
Pense em uma casa onde o banheiro tem boa iluminação, barras de apoio, piso antiderrapante e contraste de cores entre o piso e as paredes. Agora imagine outra casa com corredores escuros, tapetes soltos, degraus mal sinalizados e móveis que dificultam a circulação. A diferença entre esses dois cenários vai muito além do conforto. Ela pode representar a manutenção da autonomia ou o início de uma dependência.
O mesmo vale para a cidade. Uma calçada bem conservada convida à caminhada. Bancos distribuídos ao longo do percurso permitem pausas. Árvores oferecem sombra. Travessias com tempo suficiente respeitam quem caminha mais devagar. Tudo isso faz com que a pessoa idosa continue ocupando os espaços públicos.
Quando esses elementos desaparecem, acontece o contrário. Muitos preferem permanecer em casa porque a cidade deixou de acolhê-los. O isolamento social cresce e, junto com ele, aumentam o sedentarismo, a perda de mobilidade e os problemas de saúde.
Pesquisas mostram que muitas rotas de pedestres em áreas comerciais das grandes cidades brasileiras ainda falham em critérios básicos de acessibilidade e conforto. Ao mesmo tempo, uma grande parcela das pessoas com mais de 60 anos afirmam que frequentariam mais parques e praças se encontrassem caminhos planos, pisos seguros, banheiros acessíveis e locais para descanso.
Esses dados revelam uma importante mudança de perspectiva. Muitas vezes, não são as pessoas que deixam de sair. É a cidade que deixa de recebê-las.
Dentro das residências, onde ocorrem os maiores casos de quedas, pequenas adaptações podem produzir grandes resultados. Melhorar a iluminação, eliminar desníveis, retirar tapetes soltos, instalar corrimãos e barras de apoio, facilitar a identificação dos ambientes por meio de contrastes de cores e organizar a circulação reduzem riscos e favorecem a independência. Estudos apontam que intervenções desse tipo podem diminuir significativamente a necessidade de ajuda nas atividades do dia a dia.
A prevenção começa antes da primeira queda
Esperar que uma queda aconteça para só então agir é um dos erros mais comuns. Na maioria das vezes, o corpo já vinha dando sinais de alerta. Tropeços frequentes, dificuldade para levantar de uma cadeira, sensação de instabilidade ao caminhar, tonturas, necessidade de apoiar-se constantemente nos móveis ou episódios de quase queda merecem investigação. Esses sinais indicam que é hora de conversar com o médico e avaliar possíveis causas.A prevenção envolve diferentes cuidados ao mesmo tempo. A prática regular de exercícios, especialmente aqueles voltados ao fortalecimento muscular, equilíbrio e flexibilidade, reduz significativamente o risco de quedas. Também é importante revisar periodicamente os medicamentos, já que alguns podem causar sonolência, queda da pressão arterial ou tonturas. Avaliações da visão e da audição também fazem diferença, pois enxergar mal um degrau ou não perceber um obstáculo pode ser suficiente para provocar um acidente.
Outro ponto pouco lembrado é o calçado. Chinelos frouxos, solados muito gastos ou sapatos sem firmeza aumentam a instabilidade. Um calçado fechado, confortável e com sola antiderrapante oferece mais segurança dentro e fora de casa.
O que fazer quando uma pessoa idosa sofre uma queda?
O impulso de levantar a pessoa imediatamente costuma ser grande, mas nem sempre é a atitude mais segura. O primeiro passo é manter a calma e verificar se ela está consciente e consegue responder às perguntas. Pergunte onde sente dor e observe se há deformidades, sangramento ou dificuldade para movimentar braços e pernas. Se houver suspeita de fratura, dor intensa, perda de consciência, batida na cabeça ou incapacidade para se levantar, o ideal é não movimentá-la e acionar imediatamente o serviço de emergência.Mesmo quando a pessoa consegue levantar sozinha e aparentemente está bem, a queda não deve ser ignorada. É recomendável procurar avaliação médica, principalmente se houver uso de medicamentos anticoagulantes, tonturas frequentes ou repetição de episódios. Uma queda costuma ser um sintoma de que algo mudou na saúde ou no ambiente e merece ser investigada.
Prevenir quedas é uma responsabilidade compartilhada
É comum atribuir a responsabilidade apenas à pessoa idosa, como se bastasse "ter mais cuidado". A realidade é mais complexa. A prevenção depende da própria pessoa, da família, dos profissionais de saúde, dos arquitetos, urbanistas e também dos gestores públicos.Famílias podem tornar a casa mais segura e incentivar a manutenção da autonomia, evitando tanto a negligência quanto a superproteção. Profissionais de saúde identificam fatores de risco e orientam intervenções precoces. Arquitetos e urbanistas projetam ambientes mais intuitivos, acessíveis e acolhedores. Já o poder público tem o dever de garantir calçadas em boas condições, iluminação adequada, travessias seguras e espaços públicos que possam ser utilizados por pessoas de todas as idades.
Cada barra de apoio instalada, cada calçada recuperada, cada medicamento revisto e cada pessoa que recupera a confiança para voltar a caminhar representam um passo importante para que o envelhecimento seja vivido com autonomia e dignidade.
Há ainda um desafio também pouco discutido. Um ambiente seguro não deve lembrar um hospital. Segurança e beleza podem caminhar juntas. Casas acolhedoras, praças agradáveis e bairros acessíveis estimulam as pessoas a permanecerem ativas, convivendo e participando da vida da comunidade.
À medida que a população brasileira envelhece, a pergunta deixa de ser como tratar as consequências das quedas. A questão mais importante passa a ser outra: estamos projetando casas e cidades compatíveis com a longevidade?
Como arquiteta, acredito que essa resposta começa muito antes do atendimento hospitalar. Ela nasce quando compreendemos que um bom projeto não organiza apenas paredes e mobiliário. Ele protege a autonomia, fortalece a confiança e amplia o tempo de permanência das pessoas na vida que desejam continuar vivendo.
À medida que a população brasileira envelhece, a pergunta deixa de ser como tratar as consequências das quedas. A questão mais importante passa a ser outra: estamos projetando casas e cidades compatíveis com a longevidade?
Como arquiteta, acredito que essa resposta começa muito antes do atendimento hospitalar. Ela nasce quando compreendemos que um bom projeto não organiza apenas paredes e mobiliário. Ele protege a autonomia, fortalece a confiança e amplia o tempo de permanência das pessoas na vida que desejam continuar vivendo.


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