A cidade que não te vê: quando o espaço urbano envelhece mais rápido do que aprende

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  Há uma cena que se repete em muitas de nossas cidades com uma regularidade que incomoda. Uma pessoa idosa para na esquina, olha para os dois lados, e espera. E muitas vezes o sinal já abriu. Ela espera porque sabe, por experiência acumulada no corpo, que o tempo de travessia não foi feito para o seu passo. Ela aprendeu a calcular antes de sair de casa. Calcular nas calçadas. E calcular mais uma vez, nas esquinas, enquanto os carros aguardam com uma impaciência que não se disfarça. As engrenagens e buzinas que o digam.  Essa cena dura talvez trinta segundos. Ela não costuma aparecer em nenhum relatório de mobilidade urbana. E é justamente por isso que precisamos falar.  A hostilidade que afasta Existe um tipo de arquitetura hostil que já se fala bastante: o banco com divisória no meio para impedir que alguém deite, o piso pontiagudo embaixo do viaduto, a cerca elétrica que delimita o que é de quem. São dispositivos que dizem, sem ambiguidade, você não pode ficar aqui...

Como o Ambiente Pode Melhorar a Vida de Pessoas com Demência

 


O ambiente em que vivemos tem um impacto profundo em nosso bem-estar, especialmente para pessoas com demência. A ambiência, que inclui tanto o espaço físico arquitetonicamente organizado quanto o efeito moral e psicológico que esse meio induz no comportamento dos indivíduos, desempenha um papel fundamental. Quando combinada com um projeto centrado na pessoa (human-centered design), essa abordagem pode transformar a experiência de quem vive com demência, criando um ambiente mais seguro, acolhedor e funcional.

Principais Elementos de um Ambiente Adequado

1. Redução de Estressores Ambientais

Um projeto bem planejado visa minimizar elementos que possam gerar confusão e ansiedade. Isso inclui evitar iluminação inadequada, ruídos excessivos e a exposição de suprimentos médicos. Espaços de armazenamento discretos para cadeiras de rodas e medicamentos ajudam a manter um ambiente mais tranquilo e acolhedor.

Cuidados com a iluminação:

  • Uma iluminação adequada e uniforme, com níveis entre 300 e 700 lux, é fundamental para compensar a diminuição da acuidade visual e do campo visual comum no envelhecimento e agravada pelo Alzheimer. Evitar sombras é crucial, pois estas podem criar falsas ilusões de profundidade e desorientar os indivíduos.
  • A utilização de cortinas permite filtrar a luz natural quando necessário. Deve-se preferir lâmpadas foscas e posicionar os pontos de iluminação fora da linha de visão para evitar ofuscamento.
  • Evitar superfícies brilhosas, como pisos polidos, reduz o reflexo e minimiza o risco de quedas, além de maximizar a atenção.
  • A iluminação com sinais horizontais e verticais pode reforçar as características arquitetônicas do espaço, auxiliando na orientação e reduzindo o risco de quedas, especialmente à noite.
  • Lâmpadas com sensores de movimento em corredores e banheiros melhoram a orientação noturna. Lâmpadas dimerizáveis facilitam a adaptação da visão a mudanças bruscas de iluminação entre o interior e o exterior.
  • Priorizar a iluminação natural e garantir vistas relaxantes pelas janelas também é recomendado.

2. Promoção de Distrações Positivas

Refere-se à estratégia de incorporar elementos e atividades em ambientes planejados para idosos com esquecimento que sejam capazes de desviar sua atenção de sentimentos negativos como ansiedade, dor ou frustração, e direcioná-la para estímulos que promovam bem-estar e tranquilidade.
De acordo com o estudo "Memory Care Architecture and Design | A Place for Mom", ambientes bem planejados podem oferecer diversos estímulos positivos que atuam como distrações benéficas. Estes podem incluir:
  • Livros: A leitura pode proporcionar um foco mental e emocional, transportando a pessoa para outra realidade e diminuindo a atenção em sentimentos negativos.
  • Música: A música tem um impacto significativo no humor e na memória, podendo evocar emoções positivas e desviar o foco de sentimentos de ansiedade ou agitação. 
  • Obras de arte e decoração pessoal: A presença de arte e objetos familiares, como fotografias e outros pertences pessoais, pode criar uma sensação de familiaridade e conforto, oferecendo um ponto focal positivo e reduzindo o sentimento de estranheza ou ansiedade em um novo ambiente. 
  • Vistas para a natureza: A conexão com a natureza através de janelas ou acesso a jardins terapêuticos (healing gardens) tem demonstrado reduzir a agitação, o isolamento, a depressão e comportamentos agressivos em pessoas com Alzheimer e outras demências.
Ao proporcionar essas distrações positivas, o ambiente pode promover momentos de bem-estar, reduzir a ocorrência de comportamentos desafiadores e melhorar a qualidade de vida da pessoa idosa com esquecimento. A chave está em oferecer uma variedade de estímulos que possam ser personalizados e adaptados às preferências e necessidades individuais.

3. Facilitação da Orientação (Wayfinding)

A desorientação é um desafio comum para pessoas com demência. O ambiente pode ser projetado para auxiliar a navegação de forma intuitiva:
  • Sinalização clara e legível com ícones e textos de fácil compreensão;
  • O uso de cores contrastantes é essencial para enfatizar elementos importantes que proporcionam orientação, como corrimãos e bordas de escadas, minimizando quedas. Portas de cômodos devem ser destacadas para facilitar a localização; 
  • Objetos familiares, como móveis antigos, em corredores para ajudar na orientação;
  • Integração dos sentidos, garantindo que o ambiente transmita informações coerentes por meio de imagens, sons e aromas.
  • Pessoas com demência têm menor percepção de contraste, portanto, o uso correto do contraste é crucial, especialmente no design do banheiro, para tornar as bordas dos objetos mais visíveis.
  • Estampas sutis são preferíveis, pois padrões ousados ou com linhas curvas podem ser perturbadores, criando a falsa impressão de movimento.

4. Suporte à Memórias

A importância do suporte à memórias no design de ambientes para idosos, especialmente aqueles com declínio cognitivo, reside na sua capacidade de estimular lembranças, proporcionar conforto emocional, aumentar a conexão com o ambiente e fortalecer a identidade. Ao criar espaços e incorporar elementos que remetem a experiências passadas e atividades familiares, é possível tocar em memórias afetivas que podem persistir mesmo quando a memória recente está comprometida. 
  • Estímulo de Memórias e Conforto Emocional: Atividades familiares, como cozinhar, ouvir música antiga ou folhear álbuns de fotos, podem servir como gatilhos poderosos para a memória. A música pode ativar lembranças autobiográficas. Ao projetar espaços que facilitem essas atividades, como cozinhas terapêuticas ou áreas de estar com equipamentos de música nostálgicos, é possível criar um ambiente que evoque sentimentos positivos e lembranças agradáveis. 
  • Ambientes que lembram o passado, através de decoração, mobiliário ou artefatos da época da juventude dos residentes, podem proporcionar um senso de familiaridade e segurança, reduzindo a ansiedade e a desorientação. Procurar descobrir o estilo da casa da pessoa com esquecimento quando jovem e voltar a utilizar itens familiares pode ajudar a deixá-los mais confiantes e confortáveis, além de dispor fotos e recordações que ativem memórias.
  • Há estudos que sugerem que o engajamento físico em ações, especialmente tarefas realizadas regularmente na juventude, tem maior probabilidade de desencadear ou até mesmo restaurar memórias. Isso reforça a importância de criar espaços que permitam essas atividades práticas.
  • Aumento da Conexão com o Ambiente: Espaços que ressoam com as memórias dos residentes tendem a ser percebidos como mais acolhedores e significativos. Essa conexão emocional pode facilitar a adaptação a novos ambientes, fazendo com que os residentes possam ter mais facilidade em se adaptar e formar laços em um novo local quando podem fazê-lo sentir como seu próprio espaço.
  • A utilização de pontos de referência memorizáveis, como fotos ou objetos pessoais nas portas dos quartos, pode ajudar na orientação e no deslocamento, fortalecendo a conexão do indivíduo com o seu espaço pessoal dentro do ambiente maior.
  • Fortalecimento da Identidade: Manter a conexão com o próprio passado é crucial para preservar o senso de identidade e autoestima em idosos, especialmente aqueles que vivenciam perda de memória. Ambientes que celebram as suas histórias de vida e as suas memórias podem ajudar a reafirmar o seu "eu". Ás vezes o desejo de "ir para casa" nem sempre é literal, mas um pedido de reafirmação da identidade apoiada pelas memórias de segurança, controle e amor associadas ao lar.
  • A incorporação de elementos que refletem a cultura e os valores dos residentes, também contribui para um ambiente que ressoa com a sua identidade pessoal e coletiva.
Em suma, o suporte à memórias no design arquitetônico para idosos com esquecimento não se trata apenas de criar espaços esteticamente agradáveis, mas sim de construir ambientes terapêuticos que nutram a sua história de vida, proporcionem conforto emocional e fortaleçam a sua conexão com o mundo ao seu redor e com a sua própria identidade 

5. Fomento da Autonomia e Segurança

O ambiente deve ser projetado para preservar a capacidade funcional da pessoa idosa:
  • Pisos nivelados e antiderrapantes;
  • O mobiliário deve incluir poltronas com braços laterais bem dimensionados e assentos mais altos para facilitar o sentar e levantar. Mesas de quatro pés posicionados nas extremidades são mais adequadas.
  • A instalação de barras de apoio, bancos e assentos mais altos no banheiro, seguindo normas de acessibilidade, aumenta a segurança e estabilidade.
  • A segurança é primordial, exigindo a remoção de tapetes, objetos frágeis e outros itens que possam causar quedas. A instalação de corrimãos em corredores auxilia na movimentação independente e segura.

6. Promoção do Conforto

O conforto abrange aspectos físicos e emocionais:

Conforto Térmico:

  • É crucial manter uma temperatura confortável no ambiente interno, pois idosos com Alzheimer podem perder a capacidade de julgar mudanças de temperatura e de se vestir adequadamente.
  • Radiadores devem ser bloqueados ou cobertos para evitar queimaduras. O piso aquecido é uma alternativa mais segura.
  • Sistemas de ar condicionado silenciosos são importantes para ajudar no sono, frequentemente problemático em portadores de demência.
  • A posição das saídas de ar deve ser cuidadosamente considerada para evitar movimentação de objetos que possam gerar confusão.

Acústica:

  • Utilizar materiais que absorvem o som, como forros acústicos, cortinas pesadas, carpetes e pisos acústicos, principalmente em áreas privadas como quartos, promove o conforto acústico e o descanso.
  • Portas com material de isolamento sonoro e janelas isoladas ou laminadas ajudam a bloquear ruídos externos. Sons agradáveis da natureza podem ser mantidos se o ambiente externo for tranquilo.
  • Máquinas e equipamentos devem ser os mais silenciosos possível. Se o barulho da televisão causar agitação, deve ser desligada, e música ambiente suave pode ser utilizada para ativar memórias. O ruído de fundo deve ser minimizado para auxiliar na concentração.

7. Manutenção da Privacidade e Apoio Social

A manutenção da privacidade é um aspecto crucial no projeto de ambientes para idosos, especialmente em espaços compartilhados, como lares de longa permanência ou centros de convivência. Mesmo em ambientes onde a interação social é incentivada, preservar a intimidade e o senso de controle pessoal é fundamental para o bem-estar emocional e a dignidade da pessoa idosa 

  • Barreiras Visuais: Por exemplo, em quartos compartilhados, divisórias ou cortinas podem oferecer um senso de espaço pessoal. Além disso, a disposição de mobiliário pode ser utilizada para criar áreas mais reservadas dentro de um espaço maior.
  • Locais Apropriados para Visitas: Designar áreas específicas para visitas é outra estratégia importante. Isso permite que os idosos recebam seus entes queridos em um ambiente mais íntimo e controlado, sem perturbar a rotina de outros moradores ou sentir sua privacidade invadida em seus espaços pessoais. Ao mesmo tempo em que a privacidade é essencial, o apoio social desempenha um papel igualmente importante na saúde mental e emocional dos idosos, especialmente daqueles com esquecimento, para evitar o isolamento e promover o bem-estar. 
  • Oportunidades de Interação Social: A ambiência não é somente espaço físico, mas também encontro entre os sujeitos, propiciado pela adequação das condições físicas do lugar e pelo exercício da humanização. A organização adequada para a circulação de pessoas deve levar em conta a utilização do espaço territorial necessário ao homem e que influencia seu relacionamento com os outros. É importante criar oportunidades para os residentes fazerem novos amigos e se encontrarem regularmente. A existência de espaços onde os residentes podem entreter visitantes de fora também é  crucial para evitar o isolamento. 
  • Atividades como cursos, oficinas e eventos é também uma forma de promover a interação social entre os idosos 
Portanto, um projeto bem-sucedido para idosos com esquecimento deve encontrar um equilíbrio delicado entre a oferta de privacidade e o estímulo à interação social. Ao proporcionar espaços pessoais e momentos de intimidade, juntamente com oportunidades para a conexão e o convívio, é possível criar ambientes que promovam tanto a saúde mental quanto o bem-estar emocional dessa população. 

8. Criação de um Sentimento de Pertencimento

Itens pessoais, como fotos e móveis familiares, ajudam a tornar o ambiente mais próximo da realidade vivida pelo residente, fortalecendo o vínculo emocional com o espaço.
  • Manter um ambiente familiar e alterar apenas o necessário ajuda a reduzir a confusão e incrementar a memória.
  • O layout da casa deve ser simples e intuitivo, evitando sobrecarregar os ambientes com excesso de móveis.
  • Um piso de plano aberto com poucas divisões elimina corredores e aumenta a visão geral dos ambientes, facilitando a orientação. O banheiro deve ser claramente visível a partir dos cômodos principais.
  • Janelas grandes e bem posicionadas proporcionam uma ligação com a realidade, fornecendo informações sobre o clima e a hora do dia.
  • Utilizar na decoração o estilo que a casa possuía quando a pessoa era jovem e dispor fotos, enfeites e outras recordações ativam memórias e tornam o ambiente mais confortável.
  • Pontos de referência memorizáveis, como fotos ou objetos pessoais em portas, ajudam na identificação de espaços. Símbolos (como a figura de um banheiro) nas portas também são úteis.

Conclusão

Uma ambiência planejada com foco na pessoa pode transformar a experiência de quem vive com demência, promovendo bem-estar, autonomia e qualidade de vida. Com pequenas adaptações no ambiente, é possível proporcionar mais segurança, conforto e dignidade, contribuindo para um envelhecimento mais humano e acolhedor.

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