O espaço que envelhece com você: o que a arquitetura tem a ver com os seus próximos 30 anos

Imagem
Imaginemos uma manhã comum em qualquer cidade por aí: alguém acorda, vai ao banheiro no escuro, tropeça no batente que nunca incomodou tanto antes, segura a parede porque não há barra de apoio, e pensa que está ficando velho. Não está. Está vivendo num espaço que nunca foi pensado para o corpo que ele tem hoje. Esse é o ponto que me interessa. Envelhecer todos (os que tiverem sorte) vão. Mas até que ponto a arquitetura ignora estes processos? As projeções nos dizem que o Brasil vai ter 58 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2060. E o que estamos construindo para receber esse contingente? Apartamentos com corredores de 80 centímetros. Banheiros onde dois adultos mal conseguem se virar. Entradas sem rampas. Calçadas que parecem ter sido projetadas para testar equilíbrio. A cidade, como eu costumo repetir por aqui, nunca te viu. E a maioria dos lares também não. "Aging in place" não é um conceito de design escandinavo importado para Instagram. É o direito de permanecer no ...

Resgate das nascentes urbanas - São Paulo

megalópolisSão Paulo é uma metrópole com características muito particulares. Recebe de braços abertos gente vinda de todos os cantos, do país e do exterior, somando hoje algo próximo dos 20 milhões de habitantes, que formam um mix único. Japoneses, italianos, portugueses, alemães, chineses, árabes, e outros, estabeleceram aqui grandes comunidades, que via de regra são maiores que as existentes na sua origem.

A cidade cresceu (e segue crescendo) desordenadamente, sem respeito por nada e ninguém, e os espaços urbanos resultantes desta dinâmica refletem a Babel cultural que abrigam.


planta de 1905 da cidade de São Paulo mostra os cursos dos rios Tietê, Anhangabaú, Tamanduateí, Pinheiros e seus diversos afluentes.





O paulistano vive imerso nesta riqueza cultural extraordinária, porém a conformação da cidade não facilita o encontro, a troca, não oferece na quantidade necessária espaços públicos que possam promover interação, não "azeita" as relações entre seus habitantes, que transitam na aridez acimentada de uma grande urbe parcamente arborizada, no mais das vezes, sem acesso aos poucos parques que a cidade oferece, e se o habitante sofre, o habitat então, nem se fale! 
Rios Poluídos hoje


rio Tietê em 1905

Rios de São Paulo
Arquivo Rios e Ruas
 
Não sabemos dizer se há maldade pior a cometer com o meio ambiente, do que soterrar a nascente dos seus rios, e isto foi feito aqui indiscriminadamente, sem a menor preocupação ou planejamento, de sorte que hoje raramente se pode ver alguma das nossas inúmeras nascentes, em especial as presentes nas encostas do espigão que corta a cidade. Só temos delas alguma lembrança de existência, pois muitas das edificações bombeiam incessantemente para o meio-fio ou para as galerias de águas pluviais, límpida água que mina em seus subterrâneos, enquanto a metrópole precisa importar água de outros municípios para consumo da população, e óbvio, também lidar constantemente com enchentes devastadoras.

O processo segue sem combate, a população aumenta, e importamos mais água, construímos mais, adensamos mais, impermeabilizamos mais solo, não obstante o alto preço social das enchentes decorrentes desta cruel equação, e a população nem pode se valer da contrapartida, posto que tudo isto se dá sem que os raros espaços públicos criados se conformem como espaços de encontro, e assim nossa riqueza cultural queda apenas como potencial.


Carentes de planejamento fino, que considere a população imediatamente envolvida, tanto as intervenções da municipalidade quanto as da iniciativa privada geram vez ou outra nesgas inúteis, que acabam por se tornar grave problema, posto que justamente pela falta de uso, passam a abrigar atividades ilícitas, ocupações desordenadas, consumo e venda de drogas, etc... 

 último rio totalmente limpo da capital, o Capivari
Dar bom uso aos espaços públicos existentes não é suficiente, não só temos que nos apropriar destas nesgas esquecidas, como é preciso criar mais, sempre objetivando o convívio e contato dos usuários, entre eles e a natureza. Pelo olhar do ambientalista não há lugar mais indicado para dar início à requalificação do meio ambiente que a nascente de um rio, e nossa cidade conta com inúmeras...

As nascentes tem seus anfiteatros naturais, cuja conformação geológica propicia o encontro, como seu próprio nome indica, então ao elencar os espaços requalificáveis que uma urbe dispõe, deve-se dar especial atenção à estas áreas, também porque o resgate de uma nascente é forte vetor de conscientização quanto ao ciclo das águas, consumo consciente, e procedimentos sustentáveis.


Estes espaços são particularmente estratégicos, assim como seu resgate e apropriação. A preservação pelo uso é o único caminho possível, mas na nossa cidade não basta atentar para o óbvio, novos espaços de encontro e convívio podem ter lugar a partir da implementação de novos usos para espaços existentes, e até de solo criado... 

Oscar Müller - arquiteto e urbanista






Leituras
http://rioseruas.wordpress.com/category/imagens/ 
Mapa Afetivo das Nascentes Paulistanas
As sagas de Rios de Pinheiros
Entenda por que os rios de Sao Paulo sao podres

ENTRE RIOS from Caio Ferraz on Vimeo.

Comentários

Postar um comentário

Sua opinião é super importante para nós ! Não nos responsabilizamos pelas opiniões emitidas nos comentários. Links comerciais serão automaticamente excluídos

Postagens mais visitadas deste blog

Cortina verde na fachada

10 motivos para NÃO fazer arquitetura

Arte com resíduos no canteiro de obras - Mestres da Obra

Calungas, a representação da escala nos desenhos