A cidade que não te vê: quando o espaço urbano envelhece mais rápido do que aprende

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  Há uma cena que se repete em muitas de nossas cidades com uma regularidade que incomoda. Uma pessoa idosa para na esquina, olha para os dois lados, e espera. E muitas vezes o sinal já abriu. Ela espera porque sabe, por experiência acumulada no corpo, que o tempo de travessia não foi feito para o seu passo. Ela aprendeu a calcular antes de sair de casa. Calcular nas calçadas. E calcular mais uma vez, nas esquinas, enquanto os carros aguardam com uma impaciência que não se disfarça. As engrenagens e buzinas que o digam.  Essa cena dura talvez trinta segundos. Ela não costuma aparecer em nenhum relatório de mobilidade urbana. E é justamente por isso que precisamos falar.  A hostilidade que afasta Existe um tipo de arquitetura hostil que já se fala bastante: o banco com divisória no meio para impedir que alguém deite, o piso pontiagudo embaixo do viaduto, a cerca elétrica que delimita o que é de quem. São dispositivos que dizem, sem ambiguidade, você não pode ficar aqui...

Memórias afetivas de espaços e brincadeiras

Eu disse que as recordações de como eram os espaços que lembro da minha infância iam render um post inteiro. Eu ouvi, muito tempo atrás, que nossas escolhas do presente se baseiam em algo que nos fez felizes e que nos marcou em algum tempo de nossas vidas. E essa pesquisa era sobre comportamento de compra de casas. Eu já tenho um olhar mais treinado para perceber defeitos e ressaltar qualidades, mas acompanho vários clientes nas suas compras e vejo que além das opções obvias como número de quartos e localização, o pulo do gato, aquilo que decide mesmo uma compra está em geral em um sonho. Em algo que tinha, ou que faltou, em seus muitos locais de moradia...

A mais antiga recordação que tenho de um espaço meu...um canto do corredor. Eu tinha uns três anos e esse era o meu quarto. O corredor fazia um nicho com uma janela lá em cima (a casa era de uma alemão e as janelas eram quase todas inacessíveis, deviam ficar acima da linha das portas !). Não sei como eram limpas...Bom, nesse nicho colocaram meu berço e lembro que na janela tinham brinquedos, talvez nem fosse tão alta assim, eu é que era pequena. Esse quarto aberto talvez explique porque eu sinta, hoje , tanta necessidade de ter um espaço meu, um quarto que seja meu reino e onde eu possa me espalhar e FECHAR a porta.

Outra bela recordação que tenho é das mobílias que fazia para minhas bonecas. Já falei aqui AQUI sobre elas. Muitas eram feitas com caixas de fósforos que se usavam muito mais naquela época do que agora. Achei na WEB algumas imagens que mostram como se fazia. E percebi que era bem comum as meninas exercitarem sua criatividade dessa maneira. Não existiam muitos brinquedos prontos e os que tinham eram caros, eu tinha muitas bonecas, mas nada em excesso. Me lembro até hoje de uma Pedrita que achei que nunca fosse ganhar porque era lançamento e eu sabia que não podia pedir nada que fosse além do orçamento da casa. Mas meus olhos deviam dizer o que sonhava. E ganhei ! Que alegria ! Era para essas bonecas que eu criava, no quarto de serviço, toda uma casa feita com essas mobílias, a banheira era um prato de cozinha branco de louça...

E você ? Quais as suas memórias afetivas de espaços e brincadeiras ? E como elas afetam suas escolhas hoje ?

Pontos e Ideias

Pontos e Ideias









PS: Esse site tem por norma sempre indicar a origem das fontes dos dados, mas como eu não guardei os sites de onde tirei as fotos, se alguém se sentir prejudicado, me diga que eu retiro ou se informada, coloco a autoria das fotos.  

Comentários

  1. É tão bom lembrar.

    A maior parte das minhas brincadeiras eram no quintal.

    Eu amava correr de triciclo,fazer carinho nas minhas gatinhas,dançar com a minha boneca Beth,escrever na lousa, fazer "feira" quando eu arrancava um monte de folhas das plantas...minha mãe devia adorar.

    E hoje eu sinto muita falta de espaço verde .

    Boa Noite!

    beijinhos

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  2. Eu brincava muito na rua também, e como era bom !
    Beijos

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  3. Olá, Elenara.
    Adorei o seu texto e concordo plenamente com o que vc diz. Guardo com muito carinho tudo o que vivi na infância e fico triste pq muitas crianças de hoje não tem conhecimento da alegria que é fabricar os seus próprios brinquedos...
    Também agradeço por ter mantido os créditos do meu blog nas duas primeiras imagens postadas.
    Um abraço!

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  4. Oi Aline, sempre que posso eu coloco a referência dos blogs porque as pessoas podem querer buscar na fonte (eu sempre faço isso). Já referi com o devido link que sempre facilita a quem busca. É muito legal o teu blog, volte a postar mais seguido!
    Abraços

    ResponderExcluir

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