A casa também envelhece com quem mora nela
Conheci o arquiteto e urbanista Ciro Férrer em uma live sobre GeroArquitetura, onde ele falou como nasceu a sua vivência neste campo: foi cuidador da sua avó por cinco anos. Aquela experiência transformou a sua visão de ver a arquitetura não apenas como técnica, mas principalmente como uma missão humana. Eu senti uma empatia com a sua história porque é bem semelhante com a minha. Cuidei e acompanhei meus pais em época de maior fragilidade por cerca de vinte anos. E também como ele, percebi que a arquitetura deve ser uma ferramenta de resgate. De que o projetar não deve ser apenas para o momento presente, mas para ser uma prevenção e garantia de que você, nosso cliente, continue sendo o protagonista da sua própria vida, com a dignidade que merece e sem depender excessivamente de filhos, familiares ou amigos.
Fui me aprofundar mais sobre a prática e a teoria de Ciro Férrer e isso me fez pensar em algo que observo há muitos anos na prática profissional. Costumamos imaginar o envelhecimento como uma mudança do corpo, quando, na verdade, ele também exige mudanças nas casas. E essa transformação não precisa começar aos oitenta anos, nem depois de uma queda. Ela pode começar muito antes, afinal nenhuma pessoa permanece igual ao longo da vida. A visão pode mudar, a audição pode não ser mais a mesma, os movimentos podem ficar mais lentos em alguns momentos e, muitas vezes, surgem novas formas de viver a casa. As pessoas podem receber menos visitas, passar mais tempo lendo, trabalhando em casa ou descobrindo um hobby que nunca imaginava ter. E a pergunta chave é: se nós mudamos, por que a casa permaneceria exatamente igual?
A arquitetura pensada para a longevidade parte desse princípio. Ela aceita que o ambiente também deve acompanhar quem o habita. Não se trata de transformar a residência em um espaço hospitalar, mas de criar condições para que ela continue acolhendo a vida em todas as suas fases.
O arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa escreveu que "a arquitetura é a arte da reconciliação entre nós e o mundo, e essa mediação acontece através dos sentidos". Essa frase ganha um significado especial quando pensamos no envelhecimento. A casa deixa de ser apenas um conjunto de paredes e passa a participar da forma como percebemos o mundo. Uma boa janela ilustra isso com simplicidade. Quando posicionada na altura certa, ela permite que uma pessoa sentada acompanhe o movimento da rua, veja crianças brincando, observe as árvores mudando de estação ou apenas reconheça quem passa. Parece um detalhe, mas permanecer conectado ao bairro ajuda a reduzir a sensação de isolamento que muitas vezes acompanha a velhice.
O mesmo vale para a tecnologia. Durante muito tempo ela foi tratada como um luxo. Hoje ela pode representar autonomia. Um espaço confortável para utilizar computador ou tablet, uma boa conexão com a internet e equipamentos fáceis de operar ampliam o acesso à cultura, aos serviços públicos, aos bancos, à família e aos amigos. Quanto menos dependemos de terceiros para resolver tarefas do cotidiano, maior é nossa liberdade.
Outro aspecto que merece atenção é a existência de um lugar que pertença apenas ao morador. Às vezes basta uma poltrona próxima da janela, um pequeno ateliê de pintura, uma bancada de jardinagem, um canto para costurar ou organizar fotografias antigas. São espaços que preservam interesses pessoais e ajudam a manter uma rotina que faz sentido para quem vive ali.
A GeroArquitetura costuma defender que uma casa precisa oferecer condições para viver bem e não apenas evitar acidentes. Segurança continua sendo importante, mas ela não resume a qualidade do espaço. Pequenas mudanças fazem grande diferença. Ajustar a altura de um sofá pode facilitar o ato de levantar sem esforço excessivo. Melhorar a iluminação reduz sombras e aumenta o conforto visual. Automatizar algumas funções, como acender luzes por comando de voz ou controle remoto, pode parecer um recurso sofisticado, mas para alguém com mobilidade reduzida significa independência e tranquilidade.
O bom é que nenhuma dessas soluções precisa ser implantada de uma só vez. Uma casa preparada para o futuro nasce de pequenas decisões tomadas ao longo dos anos, respeitando a história, os hábitos e a personalidade de quem mora nela. E aí vale se indagar se mais que uma casa bonita, será que ela continuará sendo um bom espaço para viver daqui a dez, quinze ou vinte anos. Porque envelhecer faz parte da vida. E viver em um lugar que acompanha esse processo continua sendo uma escolha que ainda fazemos muito pouco.

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