O quanto as cidades são seguras para mulheres?

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Estava em uma conversa em um aplicativo de mensagens (aquele mesmo que quase todos usam) quando surgiu o assunto sobre uma rua bem famosa daqui. E eu disse que não me sentia segura ao andar por ela. Que tinha uma percepção de insegurança. E a resposta foi que seria talvez uma visão pessoal. Como sei que a visão (e experiência) das mulheres sobre o que é uma cidade segura pode ser diferente das visões masculinas, fui pesquisar a respeito em artigos acadêmicos e governamentais recentes para entender mais sobre a realidade. É mesmo percepção pessoal. Ou.... Pesquisa do Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Instituto Locomotiva, divulgada em setembro de 2024, mostrou um dado alarmante: que 97% das brasileiras sentem medo de sofrer violência quando se deslocam pela cidade. A mesma pesquisa aponta que 71% das mulheres já sofreram algum tipo de violência durante seus deslocamentos urbanos. Entre mulheres negras e LBT, os índices sobem ainda mais.  Isso não é sensação isolada. Se per...

Comunicação pública, acessibilidade e cidadania: quando as escolhas falam mais alto


Linguagem fácil


Vivemos tempos curiosos. Nunca produzimos tanta informação e, ainda assim, milhões de pessoas seguem excluídas de decisões que afetam diretamente suas vidas. Muitas vezes a barreira não está na falta de acesso à internet ou aos meios de comunicação. Ela se encontra muitas vezes na linguagem, na complexidade desnecessária, na distância criada entre quem comunica e quem precisa compreender.

Foi com essa reflexão que participei, como assessora de acessibilidade, do 1º Congresso Gaúcho de Comunicação Pública, realizado em Porto Alegre. Promovido pela Dominus Consultoria e Capacitação em parceria com a Estratégia de Comunicação & Copy Sawitzki Inovação e Experiência Humana, o evento reuniu profissionais, gestores públicos, pesquisadores e especialistas para discutir temas que hoje ocupam lugar central na vida democrática.

Foto Elenara Leitão

Ao longo do dia, palestrantes como Sandra Bitencourt, Maria José Finatto, Rodrigo Abella, Soraia Hanna, Daniela Machado, Leandro Rolim e Gustavo Ferenci compartilharam experiências e reflexões sobre desinformação, fake news, transparência pública, proteção de dados, governança da informação, inovação tecnológica e os desafios da comunicação em uma sociedade cada vez mais conectada.

Entre tantos temas relevantes, um deles apareceu repetidamente sob diferentes formas: a necessidade de tornar a comunicação mais compreensível. A chamada linguagem simples deixou de ser vista apenas como uma técnica de redação para assumir seu papel como instrumento de cidadania. Afinal, uma informação pública que não pode ser compreendida por quem dela necessita deixa de cumprir sua função social.

Talvez por isso a acessibilidade e a comunicação fácil caminhem tão próximas. Ambas partem do mesmo princípio: remover barreiras. Algumas são físicas e podem ser percebidas imediatamente. Outras permanecem invisíveis, escondidas em textos excessivamente técnicos, procedimentos confusos ou informações que parecem ter sido escritas para especialistas e não para cidadãos.

Quando falamos em comunicação acessível, também falamos sobre envelhecimento. Em um país que envelhece rapidamente, tornar a informação mais clara significa ampliar a autonomia de milhões de pessoas. A cidadania depende da compreensão. E compreender depende, muitas vezes, da forma como escolhemos comunicar.

Essa compreensão esteve presente não apenas nas palestras, mas também na organização do congresso. O evento assumiu o compromisso com práticas ESG de forma concreta, incorporando ações voltadas à inclusão, à transparência e à sustentabilidade. Houve acompanhamento técnico para acessibilidade, atenção ao uso inclusivo dos espaços e preocupação com a participação de pessoas com deficiência, pessoas idosas e grupos em situação de vulnerabilidade.

As escolhas ambientais seguiram a mesma lógica. Os resíduos gerados foram destinados à reciclagem e o coffee break valorizou a agroindústria familiar e a economia solidária, oferecendo opções sem glúten, sem lactose e preparações com PANCs, demonstrando que sustentabilidade também se constrói nas pequenas decisões.



Outra iniciativa que merece destaque foi a campanha de arrecadação de livros para bibliotecas comunitárias. Em um encontro dedicado à comunicação, a ação lembrou algo essencial: o conhecimento continua sendo uma das formas mais poderosas de inclusão social. Livros ampliam repertórios, fortalecem comunidades e ajudam a construir pensamento crítico, algo cada vez mais necessário em tempos de excesso de informação e escassez de diálogo.

O encerramento trouxe ainda o lançamento do Prêmio de Boas Práticas em Comunicação, que reconhecerá iniciativas gaúchas comprometidas com a qualidade da informação e com o fortalecimento da confiança entre instituições e sociedade.

Saí do congresso com a impressão de que os debates mais importantes não estavam restritos aos painéis ou às apresentações. Eles apareciam em uma pergunta silenciosa que atravessou todo o evento: como construir instituições mais próximas das pessoas?

Talvez seja justamente nessa resposta que a comunicação pública encontre sua maior responsabilidade. Comunicar não significa apenas transmitir informações. Significa criar entendimento, ampliar a participação e garantir que mais pessoas consigam ocupar seu lugar na vida coletiva. Quando isso acontece, acessibilidade, transparência e sustentabilidade deixam de ser conceitos separados e passam a fazer parte da mesma conversa.



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