Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão. Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...
A gaiola pombalina na reconstrução de Lisboa
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
O grande terremoto que destruiu Lisboa em 1º de novembro de 1755 teve como consequência uma perda irreparável de vidas humanas e edificações. Mas também serviu para que se fizesse uma grande reflexão sobre o papel de Deus e da Ciência.
"Depois do terremoto que destruiu três quartos de Lisboa, o meio mais eficaz que os sábios do país inventaram para evitar uma ruína total foi a celebração de um soberbo auto de fé [ritual de penitência pública], tendo a Universidade de Coimbra decidido que o espetáculo de algumas pessoas sendo queimadas em fogo lento com toda a solenidade é um segredo infalível para evitar tremores de terra ", escreveria Voltaire em seu polêmico conto filosófico Cândido (1759). (BBC)
Enquanto a Igreja de então tentavam aplacar o temor divino através de autos de fé, homens de ciência procuravam analisar, pesquisar e encontrar soluções para reconstruir e, quem sabe, evitar novas tragédias. Foi assim que Lisboa foi novamente construída usando a estrutura que ficou conhecida como gaiola pombalina.
O grande terremoto que destruiu Lisboa é estimado como tendo alcançado entre 8,7 a 9 na Escala de Richter. Foi seguido por uma gigantesco maremoto de cerca de 20 metros e inúmeros incêndios. Acredita-se que tenham morrido pelo menos 10.000 pessoas.
Foi tão impactante na vida portuguesa e europeia da época que é considerado o tendo sido o marco do início da moderna sismologia. Também influenciou pensadores e literatos pela imensidão da tragédia que causou.
![]() |
| Ruínas de Lisboa |
O grande responsável pelo planejamento e execução da reconstrução da capital portuguesa foi o Marquês de Pombal que através de leis com regras construtivas e urbanas regulamentou a construção da cidade com base em um traçado regular.
![]() |
| Plano de reconstrução de Lisboa |
Para prevenir novos desastres com possíveis novos terremotos, já que as antigas construções de alvenaria se mostravam muito frágeis para suportar sismos, se pensou em um sistema que fosse mais resistente. Uma estrutura em madeira em formato tridimensional que seria incorporada às paredes de alvenaria.
Como excelentes navegadores, os portugueses detinham um grande expertise na construção naval. E foi dela que trouxeram a inspiração para o que foi batizado de gaiola pombalina.
Com efeito e tendo por base o excelente desempenho dos navios face às ações dinâmicas transmitidas pelo mar, os engenheiros militares intervenientes no processo de reconstrução da baixa estabeleceram uma analogia entre o comportamento das embarcações e o comportamento de um edifícios durante a ocorrência de um sismo. Esta analogia traduzia-se no fato de ambas as estruturas estarem sujeitas a ações atuantes em meios agitados, absorvendo parte das ações e dos deslocamentos a que estão sujeitas. (fonte)
A denominação vem de que, segundo um estudioso, "as pessoas achavam piada de ver crescer estas estruturas em madeira que pareciam umas gaiolas para uns grandes pássaros”.
"A estrutura forma cruzes de Santo André: as frechais são vigas de madeira horizontais que servem de base ao posicionamento de prumos; o travamento horizontal é estabelecido por travessanhos, colocados entre prumos, e por vergas sobre os vãos; os elementos inclinados são as escoras; a ligação entre a gaiola e a alvenaria é conseguida por mãos, peças de madeira em forma de dente." (fonte)
Já vemos em modernas construções, as gaiolas serem expostas para efeitos estéticos. O que pode ser considerado por alguns com uma proposta interessante em termos espaciais, mas é criticada por alguns especialistas em termos funcionais e de segurança.
![]() |
| Utilização das gaiolas pombalinas da decoração de interiores |
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postagens mais visitadas deste blog
Cortina verde na fachada
Essa casa super simpática me lembrou de imediato duas referências: Uma, os edificios em Atenas que ficavam perto do meu hotel. Todos tinham imensas floreiras que fazia com que ficassem tão simpáticos! Mas olhando com mais foco, me veio a segunda referência. Na verdade as fachadas da frente e fundos são como segundas peles, floreiras que criam um micro clima super agradável no interior do prédio. Justo como a casa do colega Oscar Muller. Eu juro que tenho fotos no computador, mas não consegui acha-las para colocar aqui. A dele é uma casa de vila e, na parte dos fundos, tem uma cortina de metal onde as plantas, em geral trepadeiras, se mesclam e criam um efeito super interessante. Não achei mais referências sobre esse projeto no site e não sei o autor do projeto e nem como é feita a manutenção das floreiras. Em algumas se tem alcance por dentro da casa, em outras me pareceu um pouco complicado, mas o conceito é super bom. PS: O Elcio no comentário abaixo deixou o link com ...
DIREITO À PAISAGEM
DIREITO À PAISAGEM Adeli Sell “O belo é o esplendor da ordem” - Aristóteles Os campos, as montanhas, as colônias são lugares abertos, há poucos obstáculos feitos pela mão humana; logo, quando falamos de DIREITO À PAISAGEM, estamos falando de cidades, de espaços construídos, obstruídos, que mudaram a paisagem original. Por isso temos que falar do DIREITO À CIDADE. É uma relação sujeito-objeto. O mundo e os seres humanos se afetam mutuamente. DIREITO Á CIDADE O Direito à Cidade é um direito difuso e coletivo, de natureza indivisível, de que são titulares os habitantes da cidade, as gerações presentes e futuras. É o direito de habitar, de usar, de participar da produção de cidades justas, inclusivas, democráticas e sustentáveis. Alguns falam de cidades inteligentes, pois estas teriam o condão de serem efetivamente mais justas. É na Lei n° 10.257, de 10 de julho de 2001 que temos a Regulamentação dos artigos 182 e 183 da Constituição Federal, estabelecendo diretrizes gerais da po...
Processo da Arquitetura
Como é o processo projetual de um/a Arquiteto/a? Difícil de mensurar. Me lembro quando estava no mestrado, tinha gente pesquisando os tais processos de qualidade. Para mim, mensurar quantitativamente o processo de projetar, na época, me parecia surreal. Já escrevi aqui um chamado sobre "Como você projeta? " onde expliquei mais ou menos como funciona o meu processo. E agora achei um guia rápido falando sobre isso nesse site , descrevendo exatamente o Processo de Projetar. Vale a visita para visualizar a quantidade de material gerado por um projeto. Vamos passear por ele? Passo 1: Entrevista e discussões iniciais Esse passo é fundamental. Na minha experiência profissional já posso até dizer quando um projeto vai dar certo ou não. É preciso empatia com o proprietário. Não, não se precisa pensar igual, nem quer dizer que vamos ficar amigões, mas é preciso uma cumplicidade e empatia para atingir um objetivo comum. E, fundamental, é a eta...
10 motivos para NÃO fazer arquitetura
Arquitetura....sonho dourado de muitos jovens que sonham com um futuro glamouroso e cheio de notas na conta bancária. Mas será realmente assim? Veja algumas razões de porque NÃO fazer arquitetura. 1- Principal motivo: DINHEIRO. Para os que visam a recompensa financeira em primeiro lugar: Arquitetura não é uma mina de ouro. Esqueça os figurões que vê na mídia com escritórios em Miami e Paris. Eles são a minoria da minoria. A grande maioria dos colegas arquitetos está ralando em seus escritórios ou em escritórios alheios. E ainda faz bico no fim de semana. 2- Recompensa intelectual : Tudo bem, não vou ganhar rios de dinheiro, mas vou ser reconhecido como uma pessoa criativa e maravilhosa que vive para ajudar os outros. Sim! Ajudar os amigos, parentes e conhecidos dando palpites de como eles podem arrumar suas casas e espaços. Palpite não é projeto , lembre. Sem contar que fica horas pesquisando para achar soluções interessantes e vem alguém e copia. E leva as glórias. 3- Saúde ...






Well written and easy to understand.
ResponderExcluirThanks
Excluir