Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?

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Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão.  Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...

O orgulho do pedreiro

 

Pixabay pic

Logo que me formei, tive a oportunidade de projetar para meus clientes mais importantes: meus pais. Foi uma casa de praia, luxo a que a gente podia se dar depois de anos de trabalhos. Era em outro estado e passamos muitos meses viajando para tocar a obra.

Dois homens e meio a fizeram. O meio era o filho de um deles, que estava em férias e ajudava o pai, aprendendo o ofício.

Eles trabalhavam com afinco e alegria. Talvez a proximidade da praia, o clima agradável, a falta de fiscalização constante ou a própria maneira de ver seu trabalho, fazia com que o clima na obra fosse sempre muito bom. Podia se sentir isso na energia dos espaços. Eu creio nisso. 

Espaços guardam a energia dos muitos que ali habitam, trabalham e transitam. Entre em uma igreja e sinta a transcendência dos muitos que creem. Entre em um cemitério e sintam a angústia e o peso da dor das despedidas.  

Pois aquela casa tinha esse clima de coisa feita com gosto. Tipo comida feita com amor, aquele clichê que já foi aproveitado até em comercial de tempero.

Um dia, depois de pronta, estávamos aproveitando nosso veraneio quando recebemos a visita de um dos pedreiros. Era domingo e vinha em trajes de passeio. Trazia consigo um filho pequeno. Queria mostrar ao menino a sua obra. Foi um momento tão bonito que até hoje me emociona. O orgulho de fazer algo bem feito é algo que também nos une como pessoas.  Gostamos de mostrar nossos feitos e, que os que amamos, se orgulhem dele.

Aquela tarde passada naquela casa, que já nem é mais nossa, ficou para sempre na minha memória de arquiteta. Sempre tive como máxima que uma obra bem feita depende de três pilares básicos: cliente, projetista e pedreiro. Não há projeto, por mais bem feito, que prescinda da interação com quem constrói. Tijolo a tijolo, ergue paredes e faz abrigos. Sabe pela experiência o que sabemos em teoria. Tantas vezes nos ensinam. E muitas vezes nos emocionam. 

Uma casa é feita de material, sonhos e mãos que a erguem. 

Comentários

  1. Visitar teu blog e me encantar com tua arquitetura lírica passou a ser um exercício diário de auxilio à conjugação do verbo esperançar. Obrigada!

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