Arquitetura, longevidade e o afeto como tecnologia
Como a arquitetura pode lidar com problemas sociais? Obvio que o ideal seria uma cidade inclusiva, fruto de uma sociedade também mais amigável para todos, onde os espaços pudessem ser usufruídos com segurança e generosidade. Sabemos que a arquitetura não pode solucionar problemas sociais mais amplos, que dependem de outros fatores, mas cremos ser nosso papel não acirra-los.
Nas cidades em geral, vemos o medo tomando conta dos habitantes. As pessoas optam por condomínios fechados, murados, com câmeras e vigilante. Saindo da "fortaleza" querem um ambiente parecido, onde possam estar livres dos perigos que a rua lhes oferece. A lógica dos shopping centers, com seus seguranças que afastam os considerados indesejáveis, segue este principio.
A constatação é que nossas sociedades se tornaram cada vez mais excludentes, segregadoras e inacessíveis aos degradados sociais. Toda vez que vemos condomínios fechados ganhando espaços, se tornando objeto de desejo, mais aceitamos uma sociedade com muros. Cada vez que colocamos pedras e objetos pontiagudos nos espaços públicos, mais aceitamos essas ações no âmbito particular e nos afastamos da vida generosa em comunidade. Já se soube de casos onde condôminos colocam canos nos seus espaços de estacionamento para que nenhum vizinho os ocupe em sua ausência. Com isso a sociedade vai se tornando cada dia mais egoísta e centrada em seus próprios interesses. E menos solidária e atuante no bem comum. O que seria não apenas mais generoso, como mais inteligente em termos de sobrevivência da espécie.
As causas da arquitetura hostil são bem conhecidas. Como a arquitetura pode ajudar a tornar as cidades mais amigáveis nos parece passar por ações comunitárias de acolhimento e projetação em parceria com as comunidades. Vandalismo se combate com educação, mais que com ações de coibição.
Apontamos um caso interessante em uma capital brasileira, um hospital, com fachada para uma avenida, que nunca sofre pichação. Ele tem plaquinhas super discretas alertando que o dinheiro pago na pintura para remover pichações, vai sair do tratamento de alguma mãe, irmã, esposa de alguém (é um hospital materno infantil). É eficaz há décadas. Ou seja, informação e educação atuando a favor da sociedade. Daí uma correlação: se a arquitetura ao invés de disfarçar, expusesse, deixaria de ser ferramenta de opressão, um primeiro passo para deixar de ser hostil.
Texto baseado em conversas dos arquitetos Elenara Stein Leitão, Oscar Muller e Vinicius Gonçalves
Deixo aqui, como complemento, dois tópicos das premissas do urbanismo, um documento elaborado pelos arquitetos da Synarqs que exemplificam o que acreditamos como intervenções e atuações dos profissionais no espaço urbanos
somos o mesmo, da mesma terra, da mesma vida, da mesma tribo...
Compartilhamos tudo, passado, presente e futuro, necessidades e anseios, sobrevivemos neste universo, que é único, e assim como fazemos parte do todo, o todo também faz parte de cada um de nós. Somos a cidade, e ela só é quem nela habita, sem o homem é apenas ruína, fantasma.
As intervenções que o urbanista propõe devem ser benéficas em todas as escalas, e isto começa pela menor e mais particular. Nenhuma mudança será real, a não ser que o usuário também sofra uma transformação.
As ações na cidade devem integradas, e a primeira área envolvida é sempre a social. Para melhorar a cidade, não basta tratar o espaço, é preciso tratar ao mesmo tempo do usuário.
O homem é a medida de todas as coisas.
Trabalhando com estas grandes escalas, é fácil esquecer o indivíduo, posto que é impossível considerar cada habitante. Mesmo assim, é imprescindível manter a consciência de que tudo é feito para o homem, pelo homem, e com o homem, sempre, mesmo quando tratamos das macro questões, focando o todo, buscando a holisticidade de cada ação, todos os reflexos serão percebidos por cada indivíduo em particular. A cidade está viva, mas quem sofre ou se regozija é o homem que nela habita.
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