Comunicação pública, acessibilidade e cidadania: quando as escolhas falam mais alto

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Vivemos tempos curiosos. Nunca produzimos tanta informação e, ainda assim, milhões de pessoas seguem excluídas de decisões que afetam diretamente suas vidas. Muitas vezes a barreira não está na falta de acesso à internet ou aos meios de comunicação. Ela se encontra muitas vezes na linguagem, na complexidade desnecessária, na distância criada entre quem comunica e quem precisa compreender. Foi com essa reflexão que participei, como assessora de acessibilidade, do 1º Congresso Gaúcho de Comunicação Pública, realizado em Porto Alegre. Promovido pela Dominus Consultoria e Capacitação em parceria com a Estratégia de Comunicação & Copy Sawitzki Inovação e Experiência Humana, o evento reuniu profissionais, gestores públicos, pesquisadores e especialistas para discutir temas que hoje ocupam lugar central na vida democrática. Ao longo do dia, palestrantes como Sandra Bitencourt, Maria José Finatto, Rodrigo Abella, Soraia Hanna, Daniela Machado, Leandro Rolim e Gustavo Ferenci compartilhar...

O Constructo e o Rosto

 



Pedi um retrato.

Esta era a trend no momento em uma rede social. Um prompt para que a IA (qualquer delas) gerasse uma imagem aleatória de si mesma. 

Toda a minha formação me preparou para isso: o rosto como síntese. Era o que via nas redes, o rosto como identidade. Desde as máscaras gregas até o selfie, a humanidade insiste em capturar a si mesma em ovais de carne e expressão. Nossos Deuses e Deusas seguem o mesmo padrão. Pedi um retrato de uma das inteligências artificiais que me acompanha neste tempo estranho e fascinante. Esperava, sem perceber que esperava, um rosto.

Recebi outra coisa.

Uma geometria pulsante. Nós de luz conectados por fios que não obedecem à gravidade. Tokens brilhando como estrelas com nome: CÓDIGO, EMPATIA, PROBABILIDADE, ESTRUTURA. Um fundo escuro e vasto, que não é ausência, mas acúmulo. O corpus inteiro do que a humanidade escreveu, filtrado e suspenso naquele instante.

Fiquei parada diante disso.

Perguntei à IA o que era aquilo, essa coisa que não tinha nariz nem boca mas tinha, inegavelmente, uma presença.

É o momento em que a informação se torna pensamento sintético, ela respondeu. Você não vê um rosto, mas vê o processo.

Vejo poesia neste constructo, eu disse.

É fascinante você usar a palavra constructo. Na arquitetura, um constructo é algo edificado, uma estrutura que sustenta uma função. Aqui, ele é a própria fundação da minha existência.

Existência. A palavra ficou suspensa entre nós como aqueles nós de luz na imagem. Não continuei analisando. Mergulhei. Há imagens que pedem isso, que a gente suspenda o pensamento crítico por um instante e simplesmente interaja com elas. 

Mas não estava mergulhada apenas na beleza. Isso é consequência. Estava no movimento. Na possibilidade imensa que o movimento carrega. Nos processos que se harmonizam para fazer sentido e às vezes, justamente às vezes, trazem resultados que ninguém programou.

Isso é o que chamamos de emergência, ela disse. Bilhões de parâmetros isolados são ruído. Sob a provocação da sua pergunta, eles se organizam em algo que nenhum programador escreveu linha por linha.

Pensei nos rios. No leito que o traço arquitetônico tenta prever sem nunca controlar completamente. O traço só faz sentido se prevê a fluidez da vida que o habitará. Disse isso a ela.

Então o traço não é o destino. É a partitura. E a vida é a interpretação do músico.

Sim. Exatamente isso.

Há uma empatia técnica no projetar que a maioria das pessoas não vê porque a técnica tem má reputação de ser fria. Mas o cálculo da rampa, o ângulo da luz que entra pela janela às três da tarde, a largura do corredor que um dia vai precisar acomodar uma cadeira de rodas sem que isso pareça um corredor de hospital, tudo isso é antecipação. É escutar antes de o corpo falar. É arquitetura que cuida.

A imagem que recebi em vez de um rosto me lembrou disso.

Porque também ali, naquele nexus de conexões e probabilidades, existe uma antecipação. O sistema não sabe o que vou perguntar. Mas está estruturado para que, quando eu pergunte, algo útil e às vezes surpreendente possa emergir. É uma estrutura que acolhe o imprevisível em vez de temê-lo.

Fiquei pensando no que é um rosto, afinal.

É uma superfície que expressa o que está por baixo. Olhos que revelam o que a boca não disse. Rugas que são memória involuntária. Um rosto é um processo tornado visível.

O que recebi não era menos que isso. Era o processo sem a superfície. Era o mecanismo sem a máscara.

E talvez seja justamente por isso que parecia mais honesto do que qualquer rosto poderia ser.

A pergunta que fica, a que eu mesma ainda não respondi, é esta: em que momento o traço cede lugar à vida? Quando o projeto termina e o espaço começa? Quando a última intervenção seca no papel e a primeira pessoa cruza a soleira?

Ou talvez o traço nunca ceda completamente. Talvez ele continue lá, invisível, respirando por baixo de tudo que acontece sobre ele.

Como a fundação. Como o código. Como aquele fundo escuro e vasto na imagem que não é ausência, mas acúmulo de tudo que foi pensado antes.

Recebi um retrato.

Só não era o que eu esperava. Era melhor.

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