O espaço que envelhece com você: o que a arquitetura tem a ver com os seus próximos 30 anos

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Imaginemos uma manhã comum em qualquer cidade por aí: alguém acorda, vai ao banheiro no escuro, tropeça no batente que nunca incomodou tanto antes, segura a parede porque não há barra de apoio, e pensa que está ficando velho. Não está. Está vivendo num espaço que nunca foi pensado para o corpo que ele tem hoje. Esse é o ponto que me interessa. Envelhecer todos (os que tiverem sorte) vão. Mas até que ponto a arquitetura ignora estes processos? As projeções nos dizem que o Brasil vai ter 58 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2060. E o que estamos construindo para receber esse contingente? Apartamentos com corredores de 80 centímetros. Banheiros onde dois adultos mal conseguem se virar. Entradas sem rampas. Calçadas que parecem ter sido projetadas para testar equilíbrio. A cidade, como eu costumo repetir por aqui, nunca te viu. E a maioria dos lares também não. "Aging in place" não é um conceito de design escandinavo importado para Instagram. É o direito de permanecer no ...

Centro de saúde alia tradição ao contemporâneo

O Centro Pictou Landing, localizado na Nova Escócia, Canadá, foi pensado a partir de conceitos de utilização de recursos energéticos sustentáveis.

Os Mi'kmaq são povos indígenas do Canadá e para a construção de um Centro de Saúde para eles, o Landing Pictou, foi estabelecida uma troca de informações entre arquitetos locais e os anciãos e outros integrantes da comunidade para levantar o que a Nação considera como determinantes para um centro desse tipo, condicionantes ambientais, espirituais e culturais. Tudo isso proporcionou uma experiência única sobre o projeto, que foi construído com uma equipe local da comunidade e atendendo a normas da Health Canadá. Ou seja, uma união do tradicional com o contemporâneo. 

Segundo o que li na internet, o projeto foi baseado em técnicas construtivas da comunidade, usadas em suas moradias, assim como em detalhes de canoas e sapatos de neve (essa é uma região fria).

Uma pesquisa histórica mostrou como desenvolver e utilizar o sistema estrutural de treliças de madeira de abeto redondas, que é típico da cultura Mi'kmaq para suas moradias. Esse estudo se valeu de maquetes e confirmação por testes de resistência. Foram utilizadas mão de obra da comunidade e árvores da vizinhança.


O projeto realçou pontos como iluminação e ventilaçao natural em todos os ambientes. Uma fonte subterrânea garante calor e arrefecimento para todo o prédio. As crianças da comunidade também ajudaram a fazer uma das paredes de gesso internas, feita com terra local e que ajuda a estabilizar os níveis de umidade no interior.  

Porque gostei desse projeto? 


Pelo conceito. 

Uma das regras basicas da Arquitetura é conhecer o que se projeta. 

Esse conhecer inclui entender a cultura, entender o como as técnicas construtivas se firmaram e foram utilizadas com maior ou menor êxito, entender que as pessoas que vão utilizar uma construção tem que fazer parte do projeto, seja de forma mais estreita, seja pela compreensão de seus usos e costumes. Uma construção como essa é local. E também universal porque seus conceitos, o que norteou o seu projeto e execução em termos de parceria e interação, deveriam ser bem entendidos por quem vai projetar algo semelhante em outros locais.  
 
Arquitetura :701 Architecture

Fotografia Richard Kroeker - PDI







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