Blog da Arquiteta Elenara Stein Leitão que, desde 2004, fala sobre arquitetura, urbanismo, interiores e design abordando assuntos ligados à sustentabilidade e uma concepção de espaços que conciliem bom gosto, funcionalidade e aconchego com um toque humano.
Há livros de arquitetura que nos ajudam a entender melhor projetos e/ou a trajetória de um profissioal. Há outros que ajudam a entender melhor a própria arquitetura. Renomear a arquitetura em sua evolução técnica, formal e ética (Editora Olhares) , do renomado arquiteto catalão Josep Maria Montaner, pertence à segunda categoria. Fazia um tempo que um livro de teoria não me pegava tanto para a leitura e reflexão. Um dos motivos é que, depois de tantos anos trabalhando com arquitetura, uma questão continua me acompanhando desde sempre: para quem estamos projetando? A pergunta parece simples. Talvez até óbvia. Mas basta lançar um olhar mais crítico para nossas cidades, nossas casas e nossos edifícios para perceber que esta pergunta ainda está longe de ser respondida de maneira satisfatória. Quem circula por esses espaços? Quem consegue permanecer neles? Quem é considerado quando uma calçada é desenhada, quando uma moradia é planejada, quando se define a altura de uma banca...
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A arte de fotografar prédios e cidades com alma
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Certa feita uma amiga me fez ver algo que me incomodava nas fotos de arquitetura. Disse que pareciam quase sempre retratar mundos desertos. Volumes, formas e cores em sua imponência, mas sem a presença dos seres que as habitam, que por elas transitam, que as vivam. E a real arquitetura, para mim, é feita de todos os sentidos. O arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa expressou isso muito bem, quando disse aos seus alunos:
"Não vou lhes ensinar o que é a arquitetura - tentarei ensinar a cada um de vocês quem vocês são. O primeiro requisito para o professor é inflamar a paixão do estudante pela arquitetura e lhe permitir vê-la junto com a vida...mais importante para um arquiteto que o talento de fantasiar espaços, é o dom de imaginar situações humanas".
O dom de imaginar situações humanas.
Me encanta quando vejo alguém que consegue captar a alma dos prédios. Não sendo arquiteta de formação, mas jornalista, Talita Ribeiro, consegue revelar em suas fotos, instantâneos de cidades e prédios que nos fazem ter, sobre eles, novos olhares. Eu, que nunca vibrei com a metrópole Nova Iorque, a conheci como uma cidade acolhedora viajando por seu cotidiano nos stories da Talita.
Uma boa foto é aquela que abre sua imaginação, que traz emoção. Martine Franck
Para ilustrar essa postagem fiz um garimpo nas stories do seu instagram. Duas sensações: primeira que as fotos de arquitetura que mais me tocaram não estão lá, e logo explico o porquê. Segunda, que revivi muitos dos momentos de descoberta de locais, conhecidos e desconhecidos que vi pelos olhos sensíveis da jornalista, especializada em viagens. Que hoje percorre novas rotas, também fascinantes. Para quem ficou curioso, fica a dica: sigam.
Você não fotografa com sua máquina. Você fotografa com toda sua cultura. Sebastião Salgado
Vou explicar o que me fascina nas fotos e olhar da Talita. Ela consegue garimpar a joia que se esconde no comum. As suas fotos de arquitetura não são apenas sobre prédios consagrados ou interessantes arquitetonicamente. Ela capta aquele ângulo que a maioria das pessoas passa sem ver. Ela vê beleza no que parece passageiro. Ela vê magia no que parece apenas construção. Como boa taurina, ela faz da casa e dos espaços um pouso seu, fazendo de paragens, as suas cidades particulares que, muitas vezes, são tão diferentes das de catálogo de turismo. Ela mesmo brinca que as cidades deviam contrata-la para ser embaixadora. Deviam mesmo. Ela foge do padrão comum de oferecer o mesmo de sempre.
A câmera não faz diferença nenhuma. Todas elas gravam o que você está vendo. Mas você precisa ver. Ernst Haas
"Como podem os prédios despertar tantos sentimentos em nós? Como podem ângulos retos ecoarem feito ondas dentro do corpo, na mente, no meio? É sempre um prazer encontrar construções que não apenas acolhem, mas também conversam" Talita Ribeiro
Esta frase é muito significativa do resultado que encontro em suas fotos. Acho particularmente lindo ler isso em alguém que não é arquiteto. Gostaria muito que meus projetos, os espaços que arquiteto, chegassem assim às pessoas, conversando com elas, mobilizando sensações e sentimentos de pertencimento, de estranheza, de acolhimento, de vida e pulsão!
Numa das últimas viagens, que acompanhei no stories, a foto abaixo me tocou sobremaneira. Em um único clique conseguimos notar a grandiosidade da estrutura e a singeleza da escala humana. Um museu que guarda a história (extensa) dos homens (minúsculos) mas que juntos fazem uma imensidão.
Conheci a Talita através de um projeto que o Arquitetando Ideias participava. Tive o prazer de lhe mostrar o centro histórico de Porto Alegre. E redescobri-lo também pelos seus olhos.
Outros tempos. Outras histórias. Todas marcadas nas memórias que valem a pena guardar.
Outro dos projetos bacanas da Talita pode ser visto no vídeo abaixo.
DIREITO À PAISAGEM Adeli Sell “O belo é o esplendor da ordem” - Aristóteles Os campos, as montanhas, as colônias são lugares abertos, há poucos obstáculos feitos pela mão humana; logo, quando falamos de DIREITO À PAISAGEM, estamos falando de cidades, de espaços construídos, obstruídos, que mudaram a paisagem original. Por isso temos que falar do DIREITO À CIDADE. É uma relação sujeito-objeto. O mundo e os seres humanos se afetam mutuamente. DIREITO Á CIDADE O Direito à Cidade é um direito difuso e coletivo, de natureza indivisível, de que são titulares os habitantes da cidade, as gerações presentes e futuras. É o direito de habitar, de usar, de participar da produção de cidades justas, inclusivas, democráticas e sustentáveis. Alguns falam de cidades inteligentes, pois estas teriam o condão de serem efetivamente mais justas. É na Lei n° 10.257, de 10 de julho de 2001 que temos a Regulamentação dos artigos 182 e 183 da Constituição Federal, estabelecendo diretrizes gerais da po...
Como é o processo projetual de um/a Arquiteto/a? Difícil de mensurar. Me lembro quando estava no mestrado, tinha gente pesquisando os tais processos de qualidade. Para mim, mensurar quantitativamente o processo de projetar, na época, me parecia surreal. Já escrevi aqui um chamado sobre "Como você projeta? " onde expliquei mais ou menos como funciona o meu processo. E agora achei um guia rápido falando sobre isso nesse site , descrevendo exatamente o Processo de Projetar. Vale a visita para visualizar a quantidade de material gerado por um projeto. Vamos passear por ele? Passo 1: Entrevista e discussões iniciais Esse passo é fundamental. Na minha experiência profissional já posso até dizer quando um projeto vai dar certo ou não. É preciso empatia com o proprietário. Não, não se precisa pensar igual, nem quer dizer que vamos ficar amigões, mas é preciso uma cumplicidade e empatia para atingir um objetivo comum. E, fundamental, é a eta...
Arquitetura....sonho dourado de muitos jovens que sonham com um futuro glamouroso e cheio de notas na conta bancária. Mas será realmente assim? Veja algumas razões de porque NÃO fazer arquitetura. 1- Principal motivo: DINHEIRO. Para os que visam a recompensa financeira em primeiro lugar: Arquitetura não é uma mina de ouro. Esqueça os figurões que vê na mídia com escritórios em Miami e Paris. Eles são a minoria da minoria. A grande maioria dos colegas arquitetos está ralando em seus escritórios ou em escritórios alheios. E ainda faz bico no fim de semana. 2- Recompensa intelectual : Tudo bem, não vou ganhar rios de dinheiro, mas vou ser reconhecido como uma pessoa criativa e maravilhosa que vive para ajudar os outros. Sim! Ajudar os amigos, parentes e conhecidos dando palpites de como eles podem arrumar suas casas e espaços. Palpite não é projeto , lembre. Sem contar que fica horas pesquisando para achar soluções interessantes e vem alguém e copia. E leva as glórias. 3- Saúde ...
Como arquiteta, tenho uma certa implicância com a ideia de que minha profissão seja apontada como algo que começa, e as vezes termina, essencialmente na estética. Talvez porque, depois de tantos anos de prática, trabalhando com espaços internos e externos, e as pessoas que ali vivem e circulam, tenha ficado cada vez mais evidente para mim que uma porta, uma escada, uma calçada ou uma janela podem interferir muito mais na vida de alguém do que aquilo que aparece nas fotografias dos projetos. Quando falamos de envelhecimento, isso fica ainda mais evidente. A realidade nos mostra que o Brasil está envelhecendo rapidamente. Aquela pirâmide etária que aprendemos a desenhar nos livros de geografia já não representa o país que temos. E ainda estamos tentando entender o que isso significa para as nossas casas, para as nossas cidades e para o sistema de saúde. Eu costumo pensar que há uma pergunta simples por trás de tudo isso: onde queremos envelhecer? A resposta da maioria das p...
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