Renomear a arquitetura: quando a teoria precisa olhar para a vida

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Há livros de arquitetura que nos ajudam a entender melhor projetos e/ou a trajetória de um profissioal. Há outros que ajudam a entender melhor a própria arquitetura.  Renomear a arquitetura em sua evolução técnica, formal e ética (Editora Olhares) , do  renomado arquiteto catalão Josep Maria Montaner, pertence à segunda categoria. Fazia um tempo que um livro de teoria não me pegava tanto para a leitura e reflexão. Um dos motivos é que, depois de tantos anos trabalhando com arquitetura, uma questão continua me acompanhando desde sempre: para quem estamos projetando? A pergunta parece simples. Talvez até óbvia. Mas basta lançar um olhar mais crítico para nossas cidades, nossas casas e nossos edifícios para perceber que esta pergunta ainda está longe de ser respondida de maneira satisfatória. Quem circula por esses espaços? Quem consegue permanecer neles? Quem é considerado quando uma calçada é desenhada, quando uma moradia é planejada, quando se define a altura de uma banca...

Zerno, uma semente para o amanhã

Um dos efeitos da pandemia que assola o mundo no começo da segunda década do século XXI é um desejo de volta a uma vida mais em contato com a natureza. Alguns podem se dar ao luxo de viver em suas casas de veraneio. Outros, podendo trabalhar em home office, podem deixar os núcleos urbanos super adensados e se refugiar em pequenas cidades. Mas e os que são ainda obrigados a deixar o campo para buscar trabalho nas cidades? Por isso, essa solução, premiada na competição de Adaptação urbana, sobre como a construção modelar em madeira pode ser usada em construções sustentáveis e com custo competitivo, me chamou a atenção. É uma proposta poética sobre como reter pessoas em aldeias na Rússia. Chama-se Zerno, e é uma espécie de semente de comunidade. 

À luz das recentes mudanças na sociedade devido à pandemia, a proposta «Zerno» é relevante por nos fornecer uma visão poética de como a sociedade pode regressar a áreas rurais abandonadas em busca de isolamento na forma de um retiro rural. "- Minna Riska


Como funciona?

Exatamente como a ideia de uma semente que é levada para solo fértil. A primeira etapa é chamada de germinação. O módulo fechado do Zerno é levado para um local escolhido e instalado sobre estacas. Ali é deixado exatamente para chamar a atenção das pessoas.

Para abrir o Zerno e começar a segunda fase, chamada de polinização, é preciso a ajuda de pelo menos quatro pessoas para girar o sistema que vai abrir a estrutura em 4 pétalas. E eis o arcabouço de um centro comunitário. A intenção dos autores da proposta é que as pessoas possam ir construindo suas casas ao redor deste núcleo. 




A medida que as pessoas vão utilizando os conjuntos do Zerno, vão surgindo mais potencialidades, como um moinho de vento que vai gerar energia para a vila em crescimento. E com todos os conjuntos retirados, surge outra caixa com uma turbina eólica. Depois um aerogerador que vai então tornar a comunidade um complexo com ecossistema próprio. Segundo o site explicativo: "A energia gerada será mais do que suficiente para criar um pequeno centro de TI. A parte superior da estrutura funcionará como uma estação de drones."



Sementes de comunidades que podem servir para gerar equipamentos como escolas, centros médicos, locais de trabalho.

Os autores pensaram também na durabilidade. Chamam a terceira etapa de redenção já que a estrutura tem um tempo de vida de 70 anos. Imaginam que a comunidade tenha se desenvolvido para novas necessidades e a construção em madeira poderá ser usada para novos materiais, combustível ou qualquer outra forma de reciclagem que se julgar adequada.

Projeto de Alexandra Chislavleva, Sergey Ogorodnikov, Xenia Yakimenko

Gosto da ideia de sementes que geram oportunidades. Gosto da ideia de que o projeto só funcionará se tiver a participação ativa da comunidade onde for instalado. Gosto da ideia de germinação e término. Segue um ciclo natural. Se funciona  na prática, não sei, mas a vida é feita de ideias e propostas. E de poesia.

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