A cidade que não te vê: quando o espaço urbano envelhece mais rápido do que aprende

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  Há uma cena que se repete em muitas de nossas cidades com uma regularidade que incomoda. Uma pessoa idosa para na esquina, olha para os dois lados, e espera. E muitas vezes o sinal já abriu. Ela espera porque sabe, por experiência acumulada no corpo, que o tempo de travessia não foi feito para o seu passo. Ela aprendeu a calcular antes de sair de casa. Calcular nas calçadas. E calcular mais uma vez, nas esquinas, enquanto os carros aguardam com uma impaciência que não se disfarça. As engrenagens e buzinas que o digam.  Essa cena dura talvez trinta segundos. Ela não costuma aparecer em nenhum relatório de mobilidade urbana. E é justamente por isso que precisamos falar.  A hostilidade que afasta Existe um tipo de arquitetura hostil que já se fala bastante: o banco com divisória no meio para impedir que alguém deite, o piso pontiagudo embaixo do viaduto, a cerca elétrica que delimita o que é de quem. São dispositivos que dizem, sem ambiguidade, você não pode ficar aqui...

Merdacotta - material disso mesmo que você leu

Nesses tempos extremados de trocas de farpas muito aguerridas entre pensamentos divergentes é até emblemático que se possa construir objetos úteis e até belos com o excremento. É o caso da Merdacotta, cerâmicas feitas de esterco de vaca e argila. Uma criação do Museu Della Merda.

Foi um fazendeiro italiano que concebeu a ideia de aproveitar os abundantes excrementos de suas vacas para algo produtivo. Coisas de empresário, fazer dinheiro com algo que as pessoas jogam fora e ainda com cara feia. Gianantonio Locatelli chamou o arquiteto e designer Luca Cipelletti e iniciou o seu museu. Museu da Merda.

Misturando o esterco seco com argila, palha e resíduos agrícolas, eles conseguem a Merdacotta que pode ser traduzida por merda cozida. Obviamente que os odores são trabalhados em processos que os tornam inodoros. E o metano e a ureia extraídos ainda são reaproveitados para energia e produção de plástico. 

O material resultante é a matéria prima para vários objetos, desde azulejos, canecas até vasos sanitários. 


Então? O que acharam? Tudo na vida é uma questão de saber aproveitar as oportunidades, olhar novos usos e saber congregar esforços para transformar merda em ouro.

Fotos: Henrik Blomqvist

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