Arquitetura, longevidade e o afeto como tecnologia

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Minha jornada é feita de arquitetura, escritas, buscas de pesquisadora e o ato de comunicar. Tudo junto. Amalgamado. São essas as moradas onde habito e onde meus sentimentos criam raízes.   Entre plantas baixas, livros, encontros intergeracionais e projetos coletivos, fui encontrando um eixo comum: o afeto como tecnologia humana. Esta percepção sustenta meu trabalho e define minha atuação entre a técnica e a escuta, entre os espaços e a cidade que temos e os que precisamos construir. Fundamentos Técnicos e o Olhar para o Futuro Sou arquiteta formada pela UFRGS (1982), com especialização em Engenharia de Produção focada na construção civil pela mesma instituição (1998). Esta base técnica me permite atuar com precisão na criação de ambientes seguros, onde o desenho arquitetônico serve como suporte para a autonomia ao longo da vida.  Minha prática profissional hoje é dedicada à pesquisa em gerontoarquitetura e ao conceito de aging in place, a capacidade de viver em sua própr...

Projeto de reciclagem em 1991


Esse projeto foi feito pelo meu ex-sócio, Arq. Marco Antonio Gewehr Flores, no começo da década de noventa, quando a sustentabilidade ainda não era uma preocupação constante entre as pessoas. O teatro bar não existe mais, mas os conceitos usados se tornaram cada dia mais atuais.
HANGAR STÚDIO – TEATRO BAR
 
Teatro-bar. Um espaço versátil, com amplas possibilidades de uso, que preservasse as características originais do prédio, cuja estrutura de madeira, em forma de meia-lua, tem a mesma configuração dos abrigos de aviões, daí o seu nome: Hangar Stúdio. 

Construído originalmente para ser urna fábrica de barcos, se encontrava desocupado. Revitalizar esse espaço» trazendo-o de volta ao convívio da cidade e reciclar seu uso, ampliando suas funções. Um espaço de trabalho que se transforma em um espaço de lazer para alguns e de trabalho para outros.

As dificuldades eram várias: o prédio alugado, orçamento baixo e bairro sem tradição neste tipo de proposta. Mas a criatividade e a determinação de buscar o melhor resultado, aliadas e respaldadas por um trabalho sério de pesquisa são um excelente antídoto para qualquer barreira e as propostas foram sendo definidas. Como premissa básica o uso de materiais retirados do chamado lixo urbano e considerados até algum tempo atrás como descartáveis.

Tijolos de demolição assumidos como elemento básico de intervenção no espaço, tanto interno quanto externo. Dormentes de linha férrea, usados com toda a sua força por meio de encaixes, dispensando o uso de pregos, revitalizados em sua função de conduzir a novos rumos. Senão físicos, lúdicos. E culturais. Porque onde antes existiam máquinas, hoje se ergue um palco. Com 30,00 m2 ele pode abrigar tanto uma peça de teatro quanto uma apresentarão de bairro. Espaços que se ampliam...

O resgate de materiais considerados não nobres, porém duráveis e de baixo custo, levaram ao uso da granitina no piso, que com seu xadrez nos lembra jogos, brinquedos, prazer. Signos...O quadrado e o meio círculo usados de várias formas, no exterior como referência e marco de fachada. E repetidos no interior. Intencionalmente porque acreditamos que a consciência ecológica não se resume apenas na preservação e reciclagem dos aspectos materiais, mas principalmente no resgate de nossos signos e valores básicos. Da "ludicidade” da responsabilidade de usar séria e concretamente a nossa capacidade de brincar e criar" Por isso um espaço em que as pessoas fossem parte integrante do movimento e onde o uso das cores básicas dos materiais ressaltasse o colorido do usuário. Este a peça chave de todo o conceito.

Romântico? E o que seria de nós sem essa ideia romântica de nos expor, colocar para fora as entranhas ? Desde que o primeiro homem/mulher subiu em um palco e começou a consolidar aquilo a que chamamos cultura, essa exposição de verdades faz parte de nossas vidas. Espacialmente essa referência se faz presente. Os materiais são mostrados e assumidos como parte integrante da decoração. O tratamento termo-acústico, fundamental na proposta, por se tratar de uma zona residencial e pela forma curva e a telha de zinco que recobre a cobertura e favorece a ressonância, foi executado em lã de vidro jateada sob a estrutura e aproveitado como elemento plástico, já que sua cor clara desmistifica a ideia de lugares noturnos como locais escuros.

A nossa responsabilidade social como arquitetos nos leva a ter em mente sempre uma preocupação muito grande em relação ao aspecto economia de energia aliado ao conforto térmico. Descartamos a ideia fácil (porém dispendiosa a curto e longo prazo) de aparelhos de ar condicionado e preferimos a solução mais indicada tecnicamente» de usar a diferença térmica do ambiente, utilizando um sistema de ventilação por meio de aberturas inferiores e ventiladores e exaustores no teto.

Uma obra de custo baixo, revitalizando um espaço para o convívio do bairro, reaproveitando materiais usados e outros em desuso, todos de fácil manutenção e principalmente ampliando o espaço cultural da comunidade. Talvez uma ideia romântica de que é possível em época de crise (*) apostar em qualidade e ousar. Concretamente.
(*) Aliás, em chinês o sinal que representa a palavra crise é o mesmo que representa a palavra oportunidade.

EQUIPE TÉCNICA
Projeto arquitetura : Arq.Marco Antonio Gewehr Flores
Colaborador: Arq.Elenara Stein Leitão
Execução :Eng Ephraim Tabasnick
Projeto Elétrico: Eng.Alvaro Lemos
Iluminação artística: Arco íris
Fotos: Renato Rimoli

DADOS DO PROJETO
Obra: Hangar Stúdio/teatro-bar
Local: R. Armando Barbedo 257, Tristeza, Porto Alegre/RS
Data: 1991

Autor : Elenara Leitão

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