O quanto as cidades são seguras para mulheres?

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Estava em uma conversa em um aplicativo de mensagens (aquele mesmo que quase todos usam) quando surgiu o assunto sobre uma rua bem famosa daqui. E eu disse que não me sentia segura ao andar por ela. Que tinha uma percepção de insegurança. E a resposta foi que seria talvez uma visão pessoal. Como sei que a visão (e experiência) das mulheres sobre o que é uma cidade segura pode ser diferente das visões masculinas, fui pesquisar a respeito em artigos acadêmicos e governamentais recentes para entender mais sobre a realidade. É mesmo percepção pessoal. Ou.... Pesquisa do Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Instituto Locomotiva, divulgada em setembro de 2024, mostrou um dado alarmante: que 97% das brasileiras sentem medo de sofrer violência quando se deslocam pela cidade. A mesma pesquisa aponta que 71% das mulheres já sofreram algum tipo de violência durante seus deslocamentos urbanos. Entre mulheres negras e LBT, os índices sobem ainda mais.  Isso não é sensação isolada. Se per...

Projeto de reciclagem em 1991


Esse projeto foi feito pelo meu ex-sócio, Arq. Marco Antonio Gewehr Flores, no começo da década de noventa, quando a sustentabilidade ainda não era uma preocupação constante entre as pessoas. O teatro bar não existe mais, mas os conceitos usados se tornaram cada dia mais atuais.
HANGAR STÚDIO – TEATRO BAR
 
Teatro-bar. Um espaço versátil, com amplas possibilidades de uso, que preservasse as características originais do prédio, cuja estrutura de madeira, em forma de meia-lua, tem a mesma configuração dos abrigos de aviões, daí o seu nome: Hangar Stúdio. 

Construído originalmente para ser urna fábrica de barcos, se encontrava desocupado. Revitalizar esse espaço» trazendo-o de volta ao convívio da cidade e reciclar seu uso, ampliando suas funções. Um espaço de trabalho que se transforma em um espaço de lazer para alguns e de trabalho para outros.

As dificuldades eram várias: o prédio alugado, orçamento baixo e bairro sem tradição neste tipo de proposta. Mas a criatividade e a determinação de buscar o melhor resultado, aliadas e respaldadas por um trabalho sério de pesquisa são um excelente antídoto para qualquer barreira e as propostas foram sendo definidas. Como premissa básica o uso de materiais retirados do chamado lixo urbano e considerados até algum tempo atrás como descartáveis.

Tijolos de demolição assumidos como elemento básico de intervenção no espaço, tanto interno quanto externo. Dormentes de linha férrea, usados com toda a sua força por meio de encaixes, dispensando o uso de pregos, revitalizados em sua função de conduzir a novos rumos. Senão físicos, lúdicos. E culturais. Porque onde antes existiam máquinas, hoje se ergue um palco. Com 30,00 m2 ele pode abrigar tanto uma peça de teatro quanto uma apresentarão de bairro. Espaços que se ampliam...

O resgate de materiais considerados não nobres, porém duráveis e de baixo custo, levaram ao uso da granitina no piso, que com seu xadrez nos lembra jogos, brinquedos, prazer. Signos...O quadrado e o meio círculo usados de várias formas, no exterior como referência e marco de fachada. E repetidos no interior. Intencionalmente porque acreditamos que a consciência ecológica não se resume apenas na preservação e reciclagem dos aspectos materiais, mas principalmente no resgate de nossos signos e valores básicos. Da "ludicidade” da responsabilidade de usar séria e concretamente a nossa capacidade de brincar e criar" Por isso um espaço em que as pessoas fossem parte integrante do movimento e onde o uso das cores básicas dos materiais ressaltasse o colorido do usuário. Este a peça chave de todo o conceito.

Romântico? E o que seria de nós sem essa ideia romântica de nos expor, colocar para fora as entranhas ? Desde que o primeiro homem/mulher subiu em um palco e começou a consolidar aquilo a que chamamos cultura, essa exposição de verdades faz parte de nossas vidas. Espacialmente essa referência se faz presente. Os materiais são mostrados e assumidos como parte integrante da decoração. O tratamento termo-acústico, fundamental na proposta, por se tratar de uma zona residencial e pela forma curva e a telha de zinco que recobre a cobertura e favorece a ressonância, foi executado em lã de vidro jateada sob a estrutura e aproveitado como elemento plástico, já que sua cor clara desmistifica a ideia de lugares noturnos como locais escuros.

A nossa responsabilidade social como arquitetos nos leva a ter em mente sempre uma preocupação muito grande em relação ao aspecto economia de energia aliado ao conforto térmico. Descartamos a ideia fácil (porém dispendiosa a curto e longo prazo) de aparelhos de ar condicionado e preferimos a solução mais indicada tecnicamente» de usar a diferença térmica do ambiente, utilizando um sistema de ventilação por meio de aberturas inferiores e ventiladores e exaustores no teto.

Uma obra de custo baixo, revitalizando um espaço para o convívio do bairro, reaproveitando materiais usados e outros em desuso, todos de fácil manutenção e principalmente ampliando o espaço cultural da comunidade. Talvez uma ideia romântica de que é possível em época de crise (*) apostar em qualidade e ousar. Concretamente.
(*) Aliás, em chinês o sinal que representa a palavra crise é o mesmo que representa a palavra oportunidade.

EQUIPE TÉCNICA
Projeto arquitetura : Arq.Marco Antonio Gewehr Flores
Colaborador: Arq.Elenara Stein Leitão
Execução :Eng Ephraim Tabasnick
Projeto Elétrico: Eng.Alvaro Lemos
Iluminação artística: Arco íris
Fotos: Renato Rimoli

DADOS DO PROJETO
Obra: Hangar Stúdio/teatro-bar
Local: R. Armando Barbedo 257, Tristeza, Porto Alegre/RS
Data: 1991

Autor : Elenara Leitão

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