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Mostrando postagens de março, 2026

O espaço que envelhece com você: o que a arquitetura tem a ver com os seus próximos 30 anos

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Imaginemos uma manhã comum em qualquer cidade por aí: alguém acorda, vai ao banheiro no escuro, tropeça no batente que nunca incomodou tanto antes, segura a parede porque não há barra de apoio, e pensa que está ficando velho. Não está. Está vivendo num espaço que nunca foi pensado para o corpo que ele tem hoje. Esse é o ponto que me interessa. Envelhecer todos (os que tiverem sorte) vão. Mas até que ponto a arquitetura ignora estes processos? As projeções nos dizem que o Brasil vai ter 58 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2060. E o que estamos construindo para receber esse contingente? Apartamentos com corredores de 80 centímetros. Banheiros onde dois adultos mal conseguem se virar. Entradas sem rampas. Calçadas que parecem ter sido projetadas para testar equilíbrio. A cidade, como eu costumo repetir por aqui, nunca te viu. E a maioria dos lares também não. "Aging in place" não é um conceito de design escandinavo importado para Instagram. É o direito de permanecer no ...

Sua casa está preparada para envelhecer com você?

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A gente só percebe uma coisa quando tropeça: que o chão que parecia plano a vida inteira, acaba por nos trair. Aquele mesmo chão comum, de todo dia, aquele que os pés conhecem de cor. É ali, na rotina que já virou automatismo, que mora o risco que ninguém vê. O conceito que algumas pessoas chamam hoje de “aging in place” traduz algo que a maioria das pessoas sente, o desejo de envelhecer no próprio ambiente. Onde a gente possa estar rodeada pelas marcas que a vida foi deixando nas paredes, nas gavetas, no jeito que a luz entra pela janela da cozinha às sete da manhã. Pesquisas indicam que 90% das pessoas acima de 65 anos querem exatamente isso. E 80% acreditam que a casa atual é onde vão ficar para sempre. O problema é que essa mesma casa pode estar se tornando, silenciosamente, um obstáculo. O risco não mora no extraordinário Entre 1996 e 2019, os óbitos por quedas no Brasil cresceram 319%, saltando de 24.645 para 103.284. O custo ao SUS: R$ 51 milhões por ano. Esses números têm um e...

Calçadas que cuidam: quando o chão da cidade decide quem tem o direito de sair de casa

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A imagem nos mostra uma condição ideal, mas a realidade nos traz outra verdade. Quantas vezes sentimos medo ao andar em nossas calçadas urbanas? Falta de manutenção, pontos de buracos e ficamos pensando se vamos conseguir atravessar sem cair. Esse cálculo silencioso acontece todos os dias em Porto Alegre, a cidade onde moro. E, com raras exceções, acontece nas cidades desse país, sejam grandes ou pequenas. E muitas vezes a população, que passa apressada, não se apercebe. Principalmente os jovens.  Mas calçadas não são apenas calçamentos e materiais. Elas são a primeira decisão urbana sobre quem pode participar da cidade e quem fica para trás. Em um momento em que quase 40% da população do Centro Histórico de Porto Alegre já tem 60 anos ou mais, esse chão virou questão de saúde pública. Os dados do Rio Grande do Sul confirmam o que qualquer arquiteto atento já viu nas ruas: as quedas de idosos crescem, e boa parte delas acontece fora de casa, no espaço que deveríamos chamar de públ...