A casa também envelhece com quem mora nela

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Conheci o arquiteto e urbanista Ciro Férrer em uma live sobre GeroArquitetura, onde ele falou como nasceu a sua vivência neste campo: foi cuidador da sua avó por cinco anos. Aquela experiência transformou a sua visão de ver a arquitetura não apenas como técnica, mas principalmente como uma missão humana. Eu senti uma empatia com a sua história porque é bem semelhante com a minha. Cuidei e acompanhei meus pais em época de maior fragilidade por cerca de vinte anos. E também como ele, percebi que a arquitetura deve ser uma ferramenta de resgate. De que o projetar não deve ser apenas para o momento presente, mas para ser uma prevenção e garantia de que você, nosso cliente, continue sendo o protagonista da sua própria vida, com a dignidade que merece e sem depender excessivamente de filhos, familiares ou amigos. Fui me aprofundar mais sobre a prática e a teoria de Ciro Férrer e isso me fez pensar em algo que observo há muitos anos na prática profissional. Costumamos imaginar o envelhecimen...

No sonho me encontro - quartos para ficar e viver

No sonho me encontro. Eu que sou mais nuvem que flutua que raiz que cresce. Não é a toa que me fiz arquiteta, a que imagina, cria e executa os sonhos de tantos. Neles consigo deixar sair um pouco dos meus, neles consigo formatar, dar uma sequência lógica. Pelo menos mais lógica que o que nasce em mim.

Em dias como hoje, em que o sono pede passagem, minha mente voa por quartos onde viver. Onde ficar. Onde se deixar espraiar. E não me peçam lucidez ou formas comuns. Meus sonhos de encontro comigo mesma beiram a magia.
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Um bom lugar para ler. Em bando de preferência. Animal solitária que sou, tipo as gatas que convivem comigo, também sou gregária e preciso da solidez da companhia. Pelo menos da que faz diferença.
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Um lugar para sonhar. Entre as fantasias da princesa do conto de ervilhas e da menina que queria ser astronauta convive o fascínio pela noite. Nada melhor que dormir sob as estrelas. Mas protegida. Coisas minhas...

"Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim. "

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
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Um lugar para jogar o cansaço. Chegar e resvalar, molenga que nem índio de cinema, sem precisar de muito preparo. Apenas transitar do mundo real ao mundo particular sem fazer esforço.
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Um lugar para embalar. Embalar os cansaços da rua, embalar os sonhos da vida. Embalar a própria vida.
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Um lugar para dormir. Sono solto, sem pílulas. Sem artifícios. Sono que chega naturalmente como limpeza da mente. E me deixar ficar assim, sem hora, sem metas, sem nada. Apenas o sono que chega e fica.

"Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes. (Exausto)"
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 Um lugar para acordar. Acordar mais leve e desperta. Acordar como criança que resmunga, lembrando do sonho, mas louca para se soltar nas brincadeiras do novo dia.

"Fui dormir umas vezes tão feliz, que, se
soubesse minha força, levitava.
Em outras, tanta foi a tristeza que fiz versos"
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 Um lugar para levantar. E já estar pronta para um novo viver. E um novo sonhar.
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 Do quarto quero que seja ninho. Continente de minhas fraquezas, apoio de minhas esperanças. Um pouco de colo de mãe e proteção de pai. E vice versa. Do quarto quero que seja tão meu, tão reflexo de minha alma que não se pareça com o de ninguém. Ou que se mescle ao sonho daquele que habita meu coração.

"O segredo da criatividade está em dormir bem e abrir a mente para as possibilidades infinitas. O que é um homem sem sonhos?"

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