Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?

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Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão.  Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...

Chegarão chuvas suaves

Um dos livros mais marcantes em minha vida, e de leitura constante, são As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. É um livro que me dei em 1982. Março. E sei porque em alguns livros, além da data da compra, eu costumava me fazer uma dedicatória. 

A minha versão, a segunda edição de 1980
Marte
Marcianos seremos todos nós
Os que sentem
Ave Marte!

Pensando bem, já não me lembro se escrevi isso quando comprei o livro, ou quando o reli. O que não foram poucas vezes. 

E quando soube que o autor morreu, senti aquele vazio da partida de um amigo, alguém que me acrescentou em prazer, em imagens que tenho nítidas em minha mente ao passear pelas deliciosas histórias de uma conquista "civilizatória(?)" do solo marciano. Para um livro lançado em 1951, as Crônicas Marcianas tem arrebatado milhões de leitores e edições pelo mundo afora. 
Ray Bradbury
E dentre as crônicas uma sempre me impressionou, mesmo antes do boom da automação: Chegarão Chuvas Suaves. É a história de uma casa totalmente automatizada, tecnologicamente preparada para o conforto de seus habitantes, customizada para preparar seu banho na temperatura exata, tocar suas musicas prediletas e fazer suas comidas preferidas. Mas isso numa Terra em que o holocausto nuclear dizimou as pessoas...e a casa mantém sua rotina inútil até que um desastre faz com que tudo entre em pane e apenas dela sobre um parede que repete sem parar a data: 5 de agosto de 2026... 

Triste? Imaginem uma sociedade onde ele vivia, sob o terror da Guerra Fria, e terão um panorama de inquietude não muito diferente do que abate homens e mulheres há milênios. Somos uma sociedade que cresce em tecnologia, mas não em atitudes. E ainda não é de todo impossível imaginarmos tudo o que conquistamos ser colocado ao vento por nosso modo de viver e agir.

Ave Ray Bradburry. Palavras são tesouros que guardamos para sempre. Não é a toa que seja ele o autor de outro clássico da literatura e cinema: Fahrenheit 451 onde a leitura e o possuir livros se tornaram crimes e pessoas se insurgem para poder ler...

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