29 de nov de 2018

A harmonia do clássico seria assim tão pura?

Cada dia mais sinto a necessidade de retornar ao velho e bom hábito da leitura. Não me entendam mal. Nunca o abandonei, mas a frequência tem me deixado a desejar. Foi substituída pelo fascínio de buscar na web a resposta para tantas questões. Mas nem sempre as consigo. Talvez os clássicos ajudem nessas horas a formar mais substância e bagagem.

Os clássicos...fiquei pensando neles ao ler uma página do "Breve História da Arte" e ler sobre a icônica imagem da famosa estátua da Vênus de Milo...

Quando pensam nela garanto que nunca a imaginam como na figura abaixo que foi retirada de um blog onde o autor fez uma livre intervenção com meios digitais modernos para imaginar como seria dar vida às esculturas clássicas.  

A figura abaixo, tirada do livro, é realmente mais fidedigna com a nossa memória do que seria a harmonia clássica. Bela, pura, branca como o mármore. Etérea... 
Mas pesquisas modernas mostram que não era bem assim. Não só a estátua, que foi achada em Milos e atribuída à Deusa Vênus, foi esculpida em partes como era originalmente colorida e cheia de joias como bem explica a página do livro.

Lembrei de um almoço no Studio Clio que fui em 2013, chamado de Os Deuses Coloridos,onde pela primeira vez soube das recentes pesquisas que mostram que afinal Hollywood tinha toda razão em seus filmes B, usando todas aquelas cores que chocavam pela exuberância. Na minha tosca formação ocidental clássica eu ligava o mármore puro à uma ideia de pureza e refinamento que afinal não era assim tão fidedigno ao original. O que eu achava que era fake, era na verdade o que existia. E a versão que me foi apresentada é que era fake, uma revisão histórica, depurada de todos os fatos...  (eu jurava que tinha escrito sobre, mas ou a minha memória me traiu ou os mecanismos de busca falharam...mais certo a memória...)

Como bem mostra esta reportagem sobre a exposição de Harvard que demostrou que as cores faziam parte das estátuas gregas e romanas, a noção de sobriedade que aprendemos como herança da cultura ocidental não era assim tão sóbria.

" A exposição não desafia apenas a noção de que a exuberância do mármore é a maior fonte de admiração. Algumas esculturas, como a do 'Arqueiro de Tróia' (criado cerca de 480 anos antes de Cristo), são tão multicoloridas que chegam a lembrar obras latinas, dos Astecas ou Maias. Uma curiosa semelhança se considerarmos que as peças romanas sempre foram tidas como mais clássicas justamente pela ausência de cores."

Link para as imagens das reconstruções 

Vejam aqui o que a moderna ciência nos revela sobre a real aparência das estátuas que tanto nos encantam. Qual parece real e qual parece fake aos nossos olhos???
Talvez a realidade não seja sempre como aprendemos e/ou gostaríamos que fosse. Talvez a leveza e a pureza sejam mais parecidas com brincadeiras de crianças que usam e abusam de cores do que com a pretensa elegância do purismo. Talvez. 

Mas talvez a releitura sobre a realidade faça da arte uma realidade ainda mais rica. Já pouco importa quem posou, a quem era dedicada ou as cores originais da estátua que nos encanta pela sua transcendência. Importa talvez mais o significado atual que tenha sobre nós. E em como artistas mais atuais a veem e criam sobre ela.
E vamos continuar nos perguntando sobre o significado de tudo e da vida. Vamos continuar nos debruçando sobre o passado para tentar compreender o que os humanos de tantos milênios atrás tinham de tão diferente de nós. Talvez acabemos por descobrir que tinham mais semelhanças que poderíamos imaginar... 

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