31 de mar de 2018

Moradia amiga do idoso - reflexões

Quando pensamos em moradias adaptadas aos idosos, logo imaginamos em projetar questões de segurança e acessibilidade. Idosos geralmente se tornam mais vulneráveis aos acidentes domésticos e às chamadas barreiras arquitetônicas (degraus, portas estreitas, pouca iluminação, pisos escorregadios, tapetes e quinas, por exemplo) que podem resultar em lesões, algumas de maior gravidade e de risco à saúde e à vida.

Já falei sobre isso em casas acessíveis para idosos onde relato minhas experiências de convívio com meus pais idosos (meu pai ainda era vivo na ocasião) e nas adaptações que tive que fazer em casa para ajudá-los. E também já tinha falado sobre como prevenir riscos de quedas em ambientes (e as quedas são um potencial fator de riscos em idosos).




Atualmente ganha espaço o pensamento de moradias compartilhadas ou condomínios conjuntos, os chamados Co-lares ou Co-Housing. Vejo vários grupos de amigos namorando a ideia de construir locais onde possam compartilhar com amigos seus anos de maturidade. A ideia, me parece, vem do receio de muitos de serem "pesados" ou um problema na vida de suas famílias. E também de fugir do padrão dos asilos atuais, alguns mais conhecidos como depósito de velhos em suas mentes. Eu mesma, que já cheguei aos 60 anos, começo a me preocupar com a perspectiva de morar só, e de como lidar com isso.

Já falei de alguns desses modelos de moradia que estão sendo feitos pelo mundo: alguns projetados especialmente para pessoas com algum tipo de demência, mal infelizmente comum nos idosos, como este exemplo na Holanda que descrevi AQUI. A ideia que norteou o projeto foi de que as pessoas pudessem gozar de uma certa autonomia e a comunidade funciona como uma pequena vila onde as pessoas possam viver de maneira quase normal. Esta ideia nasceu de experiências práticas de cuidadores de idosos.

Há os que já estejam colocando em prática as comunidades entre amigos, como falei nessa postagem sobre uma comunidade sustentável que um grupo construiu no Texas, já pensando no seu futuro. E AQUI notícias de condomínios, repúblicas e vilas já existentes no Brasil.

Mas essas soluções carregam em si um senão: são segregadoras. Tratam a questão velhice como um problema. Foi em uma conversa informal pela internet que debatendo sobre um texto sobre como Portugal investe em alternativas para cuidar da população idosa, que um amigo bem resumiu a questão:

...o texto começa dizendo que "mais da metade dos portugueses afirma que o envelhecimento está entre os maiores problemas do país". Ora, se envelhecimento é problema, morte prematura deve ser solução! O problema está na qualidade de vida do idoso, e não no fato dele estar vivo! Oscar Muller
Talvez o correto seria dizer que lidar com o envelhecimento de forma mais digna tem sido um desafio para as sociedades. Mas a estrutura como as soluções tem sido pensadas, já revela um ato falho: velho é visto como problema na sociedade.

Basta olharmos muitas sociedades que valorizam o velho como fonte de sabedoria para vermos como isso muda em significado e qualidade de vida para eles. Há estudos antropológicos sobre as cidades da longevidade que podem ajudar a entender como funciona esse processo. 


Autonomia e respeito

Como então seria uma moradia amiga do idoso. No que seria diferente da moradia amiga de qualquer pessoa, seja criança ou adulto? 

Penso que a vida em habitações multi geração pode ser muito mais benéfica que a segregada por faixas etárias. Morar em cooperativas  ou em Cloud Housing, compartilhando a casa de forma sustentável podem ser alternativas que tornarão a qualidade de vida muito mais rica como experiência compartilhada.

Mas há também outros valores que são importantes e que o colega Jorge Costa, um estudioso do tema, tão bem definiu em um debate de uma oficina sobre o assunto:
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Quem convive com idosos, especialmente os mais vulneráveis, sabe o quanto a rotina e a familiaridade do ambiente é importante para que mantenham uma conexão com a atualidade. Para muitos é melhor viver em uma época dentro deles, em que mantinham sua autonomia e gozavam da companhia de seres amados que já não estão perto deles. Mesmo os filhos já cresceram e não mais dependem deles. Ao contrário, nossa cultura de fascínio pelo novo acaba por fazê-los obsoletos. 

O que dizer de seus espaços então?

Já falei sobre a importância de valorizar o passado para fazer o presente mais bonito e o reconhecer como fonte propulsora de vida. Entender a delicadeza das memórias e como elas funcionam na vida pratica pode fazer toda a diferença na ambientação de uma casa. Mesmo nas residências que precisem ser adaptadas para maior comodidade e/ou renovação, além da preocupação com a segurança e acessibilidade, já citadas no início do texto, é importante manter referências que os liguem à elas de maneira amorosa. Objetos de uso, moveis que possam ser reaproveitados, tecnologia amigável que eles possam aprender a utilizar (e a tecnologia não amigável já rende uma postagem). 

Não se trata de cristalizar os ambientes e não mudar nada. Se trata de mudar com carinho e atenção. E de unir referências que ilustrem suas histórias de vida em uma ponte entre o ontem e o hoje.

Porque linda vida está em valorizar o passado para poder fazer um presente ainda melhor e mais bonito. Elenara Stein Leitão


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